13/05/13 - Após a Lei Seca, bares de BH buscam e levam clientes em casa

Flávio Machado fechou o Tribo quando a lei surgiu e agora lucra com o Parrila do Sol, que conquista clientes no Morro do Chapéu, como Denise Pacheco

Em 2008, quando a Lei Seca entrou em vigor, o empresário Flávio Machado foi à falência: “Eu era dono do bar Tribo, havia dois anos, e atendia, dependendo do dia, 500 fregueses. Meu público era 100% de Belo Horizonte. A clientela sumiu por causa da Lei Seca”. Seu estabelecimento ficava no caminho para o Morro do Chapéu, um dos luxuosos condomínios fechados em Nova Lima, às margens da BR-040, onde as blitzes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) são frequentes. No início de 2013, porém, o comerciante concluiu que a mesma Lei Seca poderia ser sua aliada. A lógica é simples: assim como a clientela da capital reduziu os passeios aos bares e restaurantes dos condomínios fechados de Nova Lima, os moradores da cidade vizinha também diminuíram a frequência aos empreendimentos de BH, sobretudo nos da Região Centro-Sul.

Machado, então, inaugurou o Parrilla do Sol, na mesma região, para atender os moradores dos condomínios fechados que ficam por ali. Também na capital, a Lei Seca também beneficiou comerciantes de empreendimentos de bairros distantes do perímetro da Avenida do Contorno. Em alguns bares e restaurantes, o movimento de clientes subiu 30%. “Está muito bom. Antes, os moradores da região que trabalhavam em BH tomavam uma cervejinha por lá. Agora, por causa da Lei Seca, deixam para prosear e se divertir aqui”, disse o comerciante enquanto servia uma taça de vinho à publicitária Denise Pacheco, de 27. Ela é uma das moradoras do Morro do Chapéu que reduziram os passeios à Savassi.

“Um táxi daqui até lá custa cerca de R$ 80”, calculou Denise, que na quinta-feira foi ao Parrilla do Sol acompanhada de três colegas: Aline Bittencourt, de 30, as irmãs Renata Inneccho, de 28, e Júlia, de 24. As duas últimas moram no condomínio Serra dos Manacás, também em Nova Lima. “Passamos a frequentar os bares e restaurantes da região onde moramos. É também uma questão de conscientização, a de não beber e assumir o volante”, ressaltou Renata.

Jacqueline Araújo, gerente da Adega Pampulha, no Vale do Sol, explica que 95% da clientela é formada por moradores da região. “Poucos são os fregueses que vêm de Belo Horizonte. Há um, que mora na Pampulha, que paga cerca de R$ 150 de táxi para vir aqui. Quer dizer, dependendo do que ele consumir, o táxi fica mais caro do que a conta”, compara Jacqueline.

Outra cara

A Lei Seca mudou o perfil da freguesia também em muitos bares e restaurantes da capital. No Bairro Horto, por exemplo, o aumento do movimento de moradores da Região Leste no Kobes Bar foi calculado em cerca de 30% pela comerciante Lígia Alves. Boa parte de sua clientela era formada por consumidores de Nova Lima, sobretudo dos luxuosos condomínios fechados da cidade vizinha. Muitos, devido à Lei Seca, diminuíram a frequência ao estabelecimento. “Ocorre uma mudança no perfil da clientela. Está mais regionalizada. Os consumidores de Nova Lima agora vêm menos aqui”, reforçou Lígia.

A comerciante Glênia Mattos, sócia do Escritório da Cerveja, no Bairro Planalto, comemora os efeitos da lei. “Quem saía do bairro para ir à Região Centro-Sul passou a se divertir mais perto de casa. É uma das consequências da Lei Seca”, disse a empresária. Um de seus clientes, o consultor de comércio Fernando Guimarães, de 28, aumentou sua frequência ao bar dela depois de dois amigos serem detidos em blitzes montados pela Polícia Militar para flagrar infratores.

Ele trabalha na unidade da Fundação Getulio Vargas (FGV) no Bairro Cidade Jardim, onde, depois do serviço, tinha o costume de tomar algumas geladas com amigos. O táxi de lá ao Planalto sai em torno de R$ 50. Fernando fez as contas e concluiu que é mais vantajoso se divertir perto de casa. “Não é só por causa do dinheiro. Dois amigos meus foram flagrados em blitzes da Lei Seca. Tiveram a carteira nacional de habilitação (CNH) recolhida. Além disso, moro a dois quarteirões do Escritório da Cerveja. Venho a pé. Portanto, é melhor tomar uma perto de casa”, justificou Fernando. A fila de clientes à espera de mesas no Escritório da Cerveja, como ocorreu na última quinta-feira, mostra que muita gente adotou a estratégia do consultor, de beber perto da própria residência.

Delivery é de gente

Muitos bares e restaurantes de tradicionais bairros do Centro-Sul de Belo Horizonte, como o Funcionários e Cidade Jardim, foram os grandes prejudicados com a Lei Seca, pois boa parte das blitzes da Polícia Militar se concentra nas avenidas da região. A drástica redução da clientela, que chegou a 30% em algumas casas, obrigou empresários a buscarem alternativas para recuperar o faturamento. As estratégias vão desde a implantação de serviço delivery, no qual uma van busca e leva os consumidores para casa, à mudança no perfil dos estabelecimentos.

O estímulo ao tradicional motorista da rodada, concedendo descontos ao condutor que não ingere bebida alcóolica com a missão de levar amigos para as residências, é outra medida. O empresário Leonardo Marques, que é diretor da seção mineira da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) e sócio do Boteco da Carne e do Monjardim Costelaria e Botequim, ambos no Bairro de Lourdes, conta que a Lei Seca reduziu sua clientela em cerca de 30%. Para reverter o jogo, ele revela que “mudou o foco, da noite para o dia”. Na prática, confidencia ele: “Investimos mais no almoço”.



No restaurante Conde, que funciona no Bairro Cidade Jardim, a alternativa foi criar o serviço Conde Delivery. A casa informou que uma equipe, em vans, busca e leva os clientes em suas residências. Para isso, o consumidor precisa telefonar para o restaurante, solicitando o serviço e combinando os horários. O custo é de R$ 7 por trecho do trajeto. O serviço, porém, não atende toda a BH: somente bairros da Região Centro-Sul. (PHL)

Fonte: Estado de Minas