|
O comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas é bem pior do que os 21,2% estimados pelo Banco Central. Pelas contas do professor José Márcio Camargo, economista-chefe da Opus Investimentos, se forem computados o uso do cheque especial e o do cartão de crédito, inclusive o parcelamento sobre o qual não incide juros, o índice chega a 43,27% da renda familiar. E o pior: ele é crescente, e depende, fundamentalmente, do mercado de trabalho. Na eventualidade de um freio no crescimento da economia — para este ano e o próximo, todos os analistas concordam que o país vai crescer menos e, dependendo da situação no mundo, a expansão menor pode se estender por vários anos — a inadimplência pode aumentar.

“Não estamos à porta de uma crise de crédito, mas tudo o que cresce a uma taxa superior a 30% ao ano está fora de equilíbrio”, alertou Camargo. Ele e outros economistas de destaque no mercado, como o chefe do Departamento Econômico da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas, o especialista em finanças públicas Raul Velloso, além do diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton Araújo, participaram ontem de um debate sobre o nível de endividamento das famílias na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), do Senado Federal.
Para Raul Velloso a população está seguindo o mal exemplo do governo, que gasta demais e investe pouco. “Nosso nível de poupança é baixo, porque consumimos muito e quem puxa é o gasto público”, salientou. Para o consultor econômico o país está num beco sem saída porque o baixo nível de poupança tem como consequência o reduzido investimento. A consequência é um crescimento econômico aquém do necessário.
Facilidades
Carlos Thadeu de Freitas vê com preocupação a taxa de crescimento do crédito às pessoas físicas que, de 2004 para cá, triplicou, alcançando 16% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. “O crédito vem crescendo mais do que a renda. Enquanto o país estiver se expandindo, os consumidores têm condições de pagar suas dívidas. O problema virá quando o país parar de crescer ”, observou. Mesmo com essa visão pouco otimista, Thadeu de Freitas não vê riscos de aumento da inadimplência no curto prazo, nem mesmo do país enfrentar uma bolha de crédito.
Para evitar que o endividamento saia do controle, o economista-chefe do Departamento Econômico da CNC cobrou mais medidas regulatórias do BC. Um exemplo é o crédito imobiliário que, com facilidades “excessivas”, vem crescendo a uma taxa superior a 50% em 12 meses. “O Banco Central poderia exigir uma entrada mais elevada para a compra do imóvel”, observou Carlos Thadeu.
O diretor de Política Econômica do Banco central, Carlos Hamilton, defendeu a instituição. A seu ver, o BC tem aplicado uma regulação dura ao sistema bancário. Como exemplo, citou a necessidade de provisão elevada para risco de crédito, o percentual maior de pagamento da parcela de cartões e o fato de que, no mercado imobiliário, a exigência de capital por parte dos bancos poder triplicar, dependendo do prazo. Ele garantiu que o endividamento, embora crescente, não está fora de controle e que o nível de comprometimento da renda com o pagamento da dívida vem se mantendo mais ou menos na mesma proporção desde 2006.
Fonte: Correio Braziliense
|