Botecos ''pés-sujos'' do Rio resistem às redesFãs de balcões de aço, carne assada na vitrine e garrafas com molho de pimenta encontram opções em vários bairros, da zona norte à zona sul
 Nos botecos clássicos, os chamados "pés-sujos", a chave do sucesso é evitar mudanças que assustem os frequentadores. "A ideia é manter sempre a estrutura de botequim. Se você começa a colocar outras coisas que não fazem parte desse mundo, você perde a sua identidade", avalia Vera Afonso, dona do Pavão Azul há 33 anos. A empresária conta que já recusou ofertas para abrir casas com o mesmo nome em outros bairros da cidade e preferiu a singularidade: um espaço simples, com mesinhas de madeira nas calçadas, um fogão tradicional e bolinhos de bacalhau feitos à mão por uma só cozinheira. "Nesse ramo, se você cresce, você paga um preço, mas nós queremos manter tudo de forma artesanal. Eu até brinco: cliente do Pavão precisa ter paciência, porque é tudo feito na hora e demora um pouquinho", conta. "Pés-limpos". Nos últimos seis anos, a expansão de redes de botequins na cidade opôs os defensores dos "pés-sujos" aos clientes dos novos "pés-limpos" - com seus cardápios bem cuidados, decoração padronizada, filiais espalhadas pela cidade, atendimento rápido e banheiros arrumados. O crescimento de cadeias como o Informal e o Belmonte atingiu o auge em 2006 e chegou a enfrentar alguns sobressaltos, mas o modelo de negócios resistiu. Com um ambiente sofisticado aliado à decoração rústica, o Informal mantém 11 espaços no Rio, da zona norte à zona sul. Já o Belmonte aposta em uma nova estratégia para se distanciar da imagem de padronização comum à s cadeias de bares e restaurantes. O dono do grupo, Antônio Rodrigues, comprou o Bar do Belmiro, em Botafogo, mas vai manter o nome original do botequim - que vai passar por uma reforma total e ter seu cardápio renovado (mais informações nesta página). Mesmo sem abandonar décadas de história, os botecos tradicionais reconhecem a necessidade de renovação para não afastar frequentadores. Em 2003, o Bracarense passou por uma grande reforma, ganhando um toldo, banheiros novos e mesas de madeira, mas não perdeu balcão de aço e a clientela. "Nossa filosofia é tradicional, mas a estrutura precisa ser a mais atual possÃvel", explica Carlos Tomé, que comanda o bar ao lado do filho Cadu. "O que não podemos é perder a alma, substituir nossos chopeiros com 26 anos de casa só com o objetivo de maximizar o lucro" . A famÃlia já recusou ofertas pelo ponto onde o bar funciona e descarta abrir filiais em outras regiões da cidade, com o objetivo de manter o padrão de qualidade. "A gente não é maluco de rasgar dinheiro, mas quando há um conflito entre o moderno e o tradicional, prevalece sempre a tradição", diz Carlos. 25/10/2010 - Estadão |