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Falta de mão de obra pouco qualificada faz empresas criarem cursos de qualificação
O aquecimento da economia também expôs a fragilidade do país para preencher as vagas de mão de obra pouco qualificada. Setores como construção civil, bares e restaurantes e limpeza têm tido dificuldade para encontrar funcionários e estão tomando medidas para diminuir a rotatividade nos estabelecimentos, com maiores reajustes salariais e oferta de cursos de capacitação. Em 2010, segundo o Dieese, 97% das categorias que negociaram remuneração obtiveram um aumento acima da inflação.
O setor de asseio e conservação no Paraná ofereceu reajuste de 15% para o piso dos profissionais. Com o aumento, o Sindicato das Empresas de Asseio e Conservação do Paraná (SEAC-PR) espera reduzir o número de vagas não preenchidas – cerca de 10% do efetivo de pessoal está em aberto, segundo a entidade.
Uma pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes – Seção Paraná (Abrasel-PR) mostra que a média dos menores salários do setor é 8,8% maior do que o piso da categoria, fixado em R$ 610. O levantamento foi feito entre 13 e 21de janeiro em 58 empresas do setor. A pesquisa também fez uma análise das funções com mais vagas em aberto: auxiliar de cozinha, atendente, garçom e garçonete e auxiliar de serviços gerais. O segmento representa 300 mil trabalhadores diretos no estado. “Estamos observando um verdadeiro apagão de mão de obra especializada”, diz Luciano Bartolomeu, presidente executivo da Abrasel-PR. “Os bares e restaurantes estavam contratando quem estava passando na porta. Por causa da reclamações da falta de qualificação dos interessados, criamos um Programa de Emprego e Qualificação”, diz.
Evandro Luiz de Oliveira, 44 anos, aproveitou o curso para dar uma guinada na carreira. Após trabalhar na área de engenharia civil, ele fez o curso de cozinha da Abrasel-PR, com duração de apenas uma semana. Ao fim do curso, foi contratado para trabalhar numa das lojas da rede China In Box, em Curitiba. “Eu sempre gostei da área de cozinha e me surpreendi com a possibilidade de crescimento dentro da rede”, diz. Agora, ele se prepara para iniciar um curso de inglês, também organizado pela Abrasel e gratuito para quem trabalha nas empresas do setor. “Há a preocupação de atender os clientes estrangeiros e quero estar pronto”, diz Oliveira.
Num momento de economia aquecida, a possibilidade de mudar se torna mais atraente. O processo de seleção para uma vaga de atendimento ao cliente na Dtcom, especializada em comunicação e capacitação corporativa a distância, contou com candidatos formados em áreas como Direito e Jornalismo. “Além disso, tivemos várias inscrições de jovens de outros estados”, diz Laila de Sol e Silva, gerente de marketing da empresa.
Construção
No setor de construção civil, as incorporadoras sofrem com a falta de pedreiros e carpinteiros. A Plaenge trouxe mão de obra do Nordeste para trabalhar em Curitiba. “O número de obras é muito grande e não há gente qualificada. O que ocorreu foi que o país ficou duas décadas parado e isso desmotivou o pessoal de construção, que acabou migrando para outras áreas. Agora, não há trabalhador”, afirma Frederico José Hofius, gerente de engenharia da Plaenge. A construtora também implementou no ano passado uma escola interna de formação de pedreiros. “Já que ele não está pronto, é a nossa tentativa de formar o profissional”, diz Hofius.
Executivos expatriados retornam ao Brasil
Com a crise financeira ainda provocando impacto no exterior e a grande demanda por obras no país – Copa do Mundo, Olimpíada, PAC – , não só estrangeiros passaram a ver o país com outros olhos, mas também brasileiros que trabalhavam no exterior iniciaram um movimento de retorno.
Claudio Silva, gerente financeiro da Aker Solutions em Curitiba, multinacional norueguesa do setor de óleo e gás, voltou à cidade após quatro anos expatriado em Aberdeen, na Escócia. Ele e a esposa já planejavam fixar residência no Reino Unido quando recebeu uma proposta para voltar ao Brasil. “A empresa aqui está num crescimento tremendo, numa curva oposta à observada pelas empresas europeias”, diz. “Não tive perdas, mas inicialmente a questão salarial não foi um grande atrativo. O diferencial para o retorno foi a expectativa de crescimento, bem maior aqui.”
Salários
Estudo publicado pela revista The Economist e conduzido pela associação executiva AESC e pela empresa de recrutamento Dasein mostra que o salário de diretores e presidentes de empresas no Brasil é o maior do mundo. Enquanto um diretor de uma empresa em São Paulo recebe, em média, US$ 243 mil por ano, um colega que exerce a mesma função em Nova York ganha US$ 213 mil e em Londres, US$ 179 mil. A publicação cita o crescimento econômico e o baixo número de trabalhadores preparados como fatores da alta remuneração. Como exemplo, compara o número de engenheiros formados no país: apenas 35 mil por ano, enquanto na China são 400 mil e, na Índia, 250 mil por ano.
Mal planejado
Para Marco Túlio Zanini, consultor de empresas e coordenador do mestrado executivo em Gestão Empresarial da Ebape-FGV, no Rio de Janeiro, o apagão de talentos no Brasil é fruto da falta de planejamento. “A flexibilização das regras para a vinda de profissionais qualificados do exterior é a prova de uma falha histórica de pensar e planejar o Brasil. A educação nunca foi colocada como uma prioridade. A Índia, mesmo com todos os seus problemas, produz uma quantidade imensa de doutores, enquanto aqui esse nível de educação ainda é raro”, afirma.
Banco
Preocupado com a falta de engenheiros, o governo também anunciou a criação de um banco de dados para mapear a mão de obra em setores estratégicos para o desenvolvimento. De acordo com o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), o objetivo é “criar um banco de informações que permitirá às empresas saber onde buscar engenheiros para as grandes obras de infraestrutura e do pré-sal previstas nos próximos anos.”
Os engenheiros responderão a um questionário sobre a instituição de graduação, ano de formatura, tempo de exercício e disponibilidade para voltar a atuar na área, se estiverem em outras ocupações. No futuro, o MDIC quer expandir o programa para outras profissões. O processo de criação do banco de deve começar em junho deste ano e resultará de uma parceria entre o Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agrononomia (Confea), os conselhos regionais e a Secretaria de Comércio e Serviços do MDIC. (BB)
Fonte: Gazeta do Povo
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