Promissor, mercado da alimentação está carente de profissionais

 

Comer. O prazer em desfrutar sabores e texturas está no imaginário da maioria das pessoas. Mas, ao sentar-se à mesa — seja em casa ou em um restaurante — e deleitar-se com alguma delícia, pouco se sabe sobre o processo de feitura de cada ingrediente. Por trás de uma refeição, há inúmeros procedimentos, que demandam uma diversificada gama de profissionais. E os empresários do setor sofrem frequentemente com a falta de oferta de mão de obra de algumas carreiras.

 

O mercado de trabalho do segmento de alimentação gira em torno de basicamente três frentes: a de produção, a industrial e a de comercialização. Na primeira delas, as principais carências são por técnicos agrícolas, administradores especializados e pessoas que atuem diretamente no plantio e na colheita. É o que dizem empregadores do setor. Proprietário da Fazenda Esperança, voltada principalmente para as culturas de alho e cebola, Márcio Braga, 49 anos, conta que enfrenta problemas no recrutamento para os cargos que exigem formação. “Nós até temos facilidade com o trabalho braçal, que é suprimido com as pessoas aqui da comunidade de Cristalina mesmo. Mas, quando preciso de alguém com mais qualificação, é complicado. Achar um técnico que entenda de hortaliça, por exemplo, é muito difícil”, elenca. 

 

Os proprietários da empresa Malunga, certificada como a maior produtora de orgânicos da América Latina, sentem falta, diz a gerente administrativa e financeira, Cíntia Brandão, de profissionais para atuarem na administração da fazenda e na plantação. “A dificuldade para o primeiro cargo está na necessidade de morar lá ou nas redondezas, onde há pouquíssima gente qualificada. Para o segundo, nós também temos muitos desfalques. Não percebemos um grande interesse dos moradores do PAD-DF (em São Sebastião). Por isso, contratamos trabalhadores de outros estados e os treinamos”, explica Cíntia.

 

O segmento da industrialização de alimentos vai desde o embalo de frutas e legumes até a fabricação de pães, biscoitos, massas, bebidas e o corte de aves. O Distrito Federal reúne hoje nesse setor 18 mil trabalhadores diretos e 30 mil indiretamente, segundo dados do Sindicato das Indústrias de Alimentação de Brasília (Siab). “As maiores demandas são por padeiros, confeiteiros, salgadeiros e auxiliares de produção, que são aquelas pessoas responsáveis por alguma etapa do processo industrial, como, por exemplo, desossar a asa do frango numa empresa responsável pelo abate de aves”, aponta o presidente do Siab, José Jofre.

 
Linha de frente

 

 

 


Entre os estabelecimentos que comercializam alimentos estão padarias, restaurantes, bares e mercados. De acordo com o sindicado dos empresários da categoria no DF (Sindhobar), somente as 10 mil empresas ligadas à instituição empregam 95 mil pessoas na capital federal. “E cada emprego direto gera três indiretos”, calcula Clayton Machado. O presidente do Sindhobar ressalta, porém, que os contratantes têm muita dificuldade em recrutar pessoas para a chamada linha de frente. “Faltam trabalhadores em todas as funções, mas os cargos que têm contato direto com o público, como garçons, maîtres e gerentes, são os mais difíceis de preencher porque exigem algum tipo de qualificação”, completa.

 

Clayton Machado defende que os cursos técnicos que formam profissionais para o setor sejam mais abrangentes. “Eles são insuficientes tanto na carga horária quanto no conteúdo. Muita gente tem a impressão de que garçom é carregador de bandeja, e não é. Tem que ter uma técnica. Além disso, você está lidando com pessoas, é preciso ter todo um trato, uma higiene, uma dinâmica”, argumenta.

 

Proprietária dos restaurantes Universal Diner, Zuu e Quitinete, a chef Mara Alcamim, 44 anos, engrossa o coro de Machado. Há 20 anos na gastronomia, ela concorda que faltam bons profissionais em todas as frentes porque não há muitos cursos. “Há poucas opções de formação. Muita gente entra no ramo por não ter outra alternativa. Ainda existe um preconceito em trabalhar na cozinha”, sentencia. “A teoria é primordial. Aqui nos meus restaurantes, todos os que subiram de posto o conseguiram depois de se aprimorar. Há cargos que você pode ensinar, mas há outros que não adianta.”

 

Com o intuito de contribuir nesse aspecto, Mara Alcamim abre espaço para jovens aprendizes e para alunos de cursos técnicos e de gastronomia. Foi assim que conheceu Marcelo Petrarca, 22 anos. Ex-estagiário do Zuu, o rapaz hoje é o cabeça do restaurante e pupilo da empresária. “Digo a todos que ele vai me substituir”, conta ela. Petrarca, apesar de muito jovem, formou-se e passou um ano entre cozinhas da Espanha e da Itália. Bem colocado no mercado, ele aconselha os candidatos ao ingresso no setor: “Digo a quem tem interesse que é preciso gostar do que faz e encarar a empresa (onde trabalha) como se fosse sua. Tem que saber também que é uma vida sacrificante. A estabilidade e o reconhecimento vêm da dedicação”, ressalta.

 

Procuram-se padeiros

 

Embora cada frente dentro do mercado de trabalho da alimentação tenha as suas demandas, há uma carreira que parece estar em extinção, tamanha a reclamação dos empresários do setor. Fica a dica: quem estiver em busca de uma carreira pode investir na panificação e na confeitaria. É emprego praticamente garantido. “Há uma carência desses profissionais em todo o Brasil. A panificação cresceu mais que a economia: 13% no ano passado e 11% em 2009. A oferta de trabalhadores não acompanhou esse processo”, justifica José Jofre. “Além disso, essa função exige grande dedicação — porque se trabalha em fins de semana, feriados — e até um bom preparo físico”, completa.

 

O presidente do Sindicato dos Proprietários de Supermercados, Tadeu Peron, diz que as empresas que representa também têm dificuldade em encontrar pessoal. “Nos mercados, falta gente qualificada em panificação e confeitaria, além de em rotisseria e açougue”, pontua. Percebendo isso, o morador de Luziânia Pedro José Pereira, 31 anos, resolveu se aprimorar. Padeiro há seis anos, ele decidiu investir em novos cursos. “Depois que comecei a fazê-los, já recebi outra proposta de emprego. Mas não quero sair da Roma (no Gama, onde trabalha), porque os donos estão investindo em mim”, conta. “Quero fazer o de confeitaria”, adianta. “Eu me vejo fazendo pão para o resto da vida.”

 

Capacitação gerencial

 

» Anualmente, o Serviço Brasileiro de Apoio as Micro e Pequenas Empresas no Distrito Federal (Sebrae) promove o Salão da Alimentação – Alimenta, que tem como objetivo principal promover a integração entre as diversas frentes do segmento e rodadas de negócios. Realizado em outubro último, o evento reuniu profissionais do DF e de outros 10 estados. “A proposta é que os pequenos empresários possam se aproximar de outros fornecedores, outros clientes etc. Por exemplo: produtores de alface querem encontrar novos mercados. Onde? Nos pequenos supermercados, nos hospitais, nos restaurantes, nas escolas. Por meio do projeto, eles puderam conhecer novos consumidores”, conta Eulália Franco, diretora do Sebrae-DF. “O Senai e o Senac oferecem formação de mão de obra e nós, de capacitação gerencial”, completa ela.

 

Fonte: Correio Braziliense