Com o crescimento da economia nacional e a realização de eventos como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, novas oportunidades se configuram para a hospedagem e para o setor de alimentação fora do lar no Brasil. É o que garante o empresário e presidente eleito da Federação Nacional de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares (FNHRBS), Alexandre Sampaio de Abreu. A posse acontece em junho. Ele avalia que embora os segmentos da cadeia do Turismo tenham sido pouco afetados pela crise mundial e apresentado um bom desempenho no ano passado, ainda há grandes desafios que precisam ser enfrentados. Entre eles estão: as questões de ordem tributária, as altas taxas de cartão de crédito, os custos operacionais, riscos trabalhistas e carga previdenciária da folha de pagamentos, que levam a quase inviabilidade os estabelecimentos que não têm um grande faturamento.
Liderança do setor desde 1990, Alexandre Sampaio é uma das personalidades que trabalha ativamente em busca de um ambiente de negócios saudável para os segmentos de hospedagem e gastronomia. Atualmente ele também ocupa os cargos de presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do Rio de Janeiro (SindRio) e de diretor financeiro da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis. Ele fala nesta entrevista sobre suas metas para a gestão 2010/2014 na Federação e faz uma avaliação do panorama atual dos segmentos envolvidos na indústria do Turismo.
1 – Como foi o início da sua carreira na área de hotelaria e turismo?
Alexandre Sampaio – Nosso grupo empresarial, que lidava com concessionária de veículos, entrou em hotelaria em 77. Construímos o primeiro hotel na Zona Sul do Rio, mais tarde em 82 em Macaé (cidade petrolífera no norte fluminense). Em 84, fizemos alterações na sociedade e constituímos uma imobiliária e lançamos o Copasul Hotel em 86, no Rio de Janeiro, em Copacabana.
2 – Quando e porque decidiu se envolver na liderança e nas lutas políticas dos setores que fazem parte da cadeia do turismo especialmente dos segmentos de hotelaria e de bares e restaurantes?
Alexandre Sampaio – A partir de 90 aproximei-me da ABIH-RJ, aonde comecei a conviver e colaborar. Desta dedicação, surgiu a indicação de meu nome para um processo de renovação no Sindicato do Rio, no qual acabei na presidência.
3- Em sua opinião, quais são os princípios de uma boa liderança?
Alexandre Sampaio – Creio que em nosso setor, extremamente pulverizado e diversificado, a liderança deve ser partícipe e gregária. Somos um segmento ainda jovem na economia brasileira, com importância regionalizada muito variável. À medida que nossa influência seja reconhecida pelos governos e sociedade como um todo, mais colaboradores vão surgir com ideias, ações e comando, para juntos melhorarmos nosso ambiente de negócios.
4- Nos próximos anos, quais serão as principais oportunidades para o crescimento da indústria do turismo, especialmente para o setor de alimentação fora do lar?
Alexandre Sampaio – Em função do crescimento da economia nacional como um todo, a hospedagem de negócios, tenderá a crescer em cidades médias de expressão regional, além das capitais com vocação para lazer e eventos. Na gastronomia, creio que as franquias continuarão sua expansão tanto em shoppings, quanto em lojas expressa de rua e acredito que, com o crescimento da classe média, a alimentação fora do lar, tanto no almoço comercial, quanto no jantar casual de lazer, continuará registrando expressiva expansão.
5- Já é possível perceber reflexos nos setores de hotelaria e alimentação fora do lar após eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas terem sido confirmados para o Brasil?
Alexandre Sampaio – No SindRio, por exemplo, acabamos de concluir um estudo sobre o perfil de emprego no setor de Turismo, incluindo alimentação e hospedagem (referente a 1998 – 2008). Nele podemos constatar um vigoroso crescimento médio em todo o Brasil de nosso segmento. Projetando esta tendência a partir de estímulos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, podemos conjecturar com razoável segurança um impacto exponencial no nível, de empregabilidade nesta mesma área, nos próximos 10 anos. Os reflexos são a procura de informações em todas as 12 sedes, para projetos hoteleiros, além do surgimento de restaurantes de alta qualidade de serviços, principalmente nas capitais menores.
6- Como o setor de turismo está se preparando para receber estes dois eventos? Haverá uma união de forças entre as entidades representativas desses segmentos para a preparação dos empresários e profissionais no atendimento das demandas geradas por esses eventos? Quais ações podem ser desenvolvidas em conjunto, por exemplo, entre a Federação e a Abrasel?
Alexandre Sampaio – Nosso campo de atuação além de atrair investimentos internacionais, propiciará também que grupos nacionais diversifiquem seus investimentos em nosso universo. Isto representa mais profissionalismo no empresariado e mais sensibilidade do poder público para construir estímulos para inversões de capital. Às entidades setoriais cabe, sem sombra de dúvida, a união de esforços propiciando informações aos interessados, gerando treinamento de colaboradores e de empreendedores e lutando juntas para solução dos problemas, de toda ordem que nos afetam. Prova disto é o recente convênio que a Abrasel e a Federação Nacional de Hotéis e Restaurantes acabaram de assinar, visando esta sinergia.
7- Com relação às ações dos governos para apoiar o empresariado na qualificação dos segmentos de turismo não só visando a Copa e as Olimpíadas, mas de forma geral, quais merecem destaque?
Alexandre Sampaio – Destaco três convênios recentes no âmbito de nosso setor, com o Ministério do Turismo. A preparação de bares e restaurantes, para serem centros de divulgação e informações turísticas, consignada pela Abrasel Nacional. O inicio da Escola Virtual dos Meios de Hospedagem com a ABIH Nacional, por meio de seu braço operacional o IBH (Instituto Brasileiro de Hospedagem) e a renovação do já consagrado Qualifica Brasil, da FNHRBS, que prepara pequenos empresários da área de alimentação e meios de hospedagem, visando sua sustentabilidade negocial.
8- Qual a sua avaliação e o posicionamento da indústria hoteleira com relação à linha de crédito do BNDES Pró Copa Turismo?
Alexandre Sampaio – Em minha opinião, fomos atendidos quanto aos prazos para pagamento dos financiamentos que dobraram, no limite da operação direta junto ao BNDES que baixou para R$ 3 milhões e na possibilidade da captação alcançar 100% dos projetos. Permanecem as dúvidas, quanto aos critérios da análise de créditos e garantias. A possibilidade de ampliar-se o uso dos fundos para pequenos e micro empresários, também é um alento.
9- Quais os principais desafios que as lideranças enfrentam para promover um ambiente empresarial e de negócios favorável para os setores de hotelaria e alimentação fora do lar no Brasil?
Alexandre Sampaio – Os principais desafios são de ordem tributária e percepção negocial quanto ao nosso setor. Com a formalização crescente e a informatização plena dos meios de pagamento no varejo, a alimentação fora do lar, em sua esmagadora maioria composta de pequenos empresários, viu suas margens quase desaparecerem na ultima década. Hoje ser dono de restaurante no Brasil, principalmente em praças de grande concorrência, nas quais o repasse de custos é difícil, chega a ser um ato heróico.
As taxas de cartão de crédito, os custos de energia, gás, água, lixo comercial, impostos municipais, aluguéis em shoppings centers, riscos trabalhistas e carga previdenciária da folha de pagamentos, nos levam a quase inviabilidade, se não tivermos um grande faturamento. Somando-se a isto a substituição tributária e o não crescimento do limite de enquadramento do Simples Nacional, encontramo-nos realmente em uma conjuntura muito difícil.
Quanto à hotelaria os problemas são similares, além de IPTU’S crescentes nos grandes centros. Não devemos nos esquecer, que ainda lidamos com a concorrência informal, que não é devidamente combatida pelas Prefeituras e pelos Estados.
Em suma os desafios são grandes e é preciso convencer as autoridades das alterações necessárias.
10- Há um entrosamento entre as entidades representativas dos diversos segmentos que envolvem a cadeia do turismo, ou é preciso evoluir nessa questão?
Alexandre Sampaio – Diante do descrito acima, não podemos nem imaginar trabalhar desassociados. Este trabalho em conjunto é útil para nossa sobrevivência.
11- O senhor acaba de ser eleito para a presidência da FNHRBS. Quais são suas principais metas de gestão?
Alexandre Sampaio – A FNHRBS doravante assumirá plenamente, sua nova denominação de Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação. Entre as nossas propostas feitas na campanha da chapa Novos Horizontes, destaco:
12- De que forma sua experiência na presidência do SindRio poderá auxiliar em sua gestão na Federação? Quais foram os projetos de destaque de seu mandato no Sindicato?
Alexandre Sampaio – Pretendo modestamente dar minha contribuição, pois nada se pode fazer dentro da FBHA, se não com a ajuda de todos os Sindicatos que a compõem. A colaboração da diretoria a se eleger conosco, será fundamental para alcançarmos o êxito em nossa empreitada. Porém destaco que aquelas premissas que nortearam nosso trabalho no SindRio, serão levadas para a Federação. Dentre elas o profissionalismo de todo o corpo funcional, o acompanhamento de metas em cronogramas de implantação de projetos, a prioridade na oferta de serviços para as empresas associadas aos sindicatos, ênfase em treinamento de mão-de-obra setorial e suporte jurídico institucional, visando atendimento do empresariado como objetivo maior.
13- Há correntes que defendam que a Federação deve deixar a Confederação Nacional do Comércio (CNC) e migrar para a Confederação Nacional do Turismo (CNTur). Qual a sua opinião sobre esta questão?
Alexandre Sampaio – Não posso concordar com esta tese. Devemos melhorar nosso relacionamento com a CNC e as Fecomercios Estaduais. Defendo um trabalho de esclarecimento junto às estruturas do Sesc e Senac, para potencializarmos as oportunidades de nosso setor, usufruir destes organismos, naquilo que eles têm de melhor. Este entrosamento é fundamental nosso negócio é hotelaria e alimentação, somos simbiônticos com transporte e agencias de viagens, porem diferentes na natureza da operação.
14- Como o senhor avalia a atuação da CNTur?
Alexandre Sampaio – A CNTur baseia-se em um esforço personalístico de seu presidente, que tem defendido tenramente na tese. Carece de representatividade, pois nem em São Paulo, sua principal base, tem consenso, tanto com agências de viagens, quanto com nosso setor.
*15- Quais as vantagens para o empresário em fazer parte dos sindicatos de bares e restaurantes em todo o país?
Alexandre Sampaio – Principalmente para o pequeno empresário, o sindicato patronal, pode ser um esteio na sua atividade diária. Uma organização que atenda minimamente os anseios deste comerciante é crucial, no crescimento de nosso setor. Por isto defendo um projeto no qual a FBHA, deve se voltar doravante, para seu público interno e fortalecer os Sindicatos, potencializando seu funcionamento na base, dotando-os dos instrumentos básicos, que nossas firmas instrumentos precisam na sua lida diária.
16- Uma de suas bandeiras é tornar o turismo receptivo reconhecido oficialmente e tributariamente como uma atividade exportadora. O que o senhor e as entidades que representa têm feito para alcançar esse objetivo? E quais as vantagens esse enquadramento traria para o setor?
Alexandre Sampaio – As vantagens seriam inúmeras, como acesso a linhas de crédito para promoções e divulgação do produto turístico, no exterior, participação em campanhas da Apex com os mesmos objetivos, possibilidade de pleitear-se créditos de ICMS em serviços públicos concedidos como água, energia e gás, que fazem parte de nossa cadeia de custos, além de uma tributação diferenciada para PIS/Cofins e IRPJ. Conseguimos uma audiência pública na Câmara para discutirmos o assunto e participamos de um grupo de trabalho da hotelaria, junto com o secretário executivo Mário Moisés do Mtur, para sensibilizarmos a Fazenda sobre o tema. Temos também a declaração da nova presidente da Comissão de Turismo da Câmara dos Deputados, que esta matéria será uma das prioridades desta legislatura.
17- Com relação à questão tributária, de forma geral, o que precisa ser feito para permitir um maior crescimento das empresas envolvidas na cadeia do turismo?
Alexandre Sampaio – Creio que o enquadramento do custo de energia, como totalmente industrial para restaurantes é prioritário. Outrossim, uma alíquota única de ICMS incentivado, a ser acordada no âmbito do Confaz, é fundamental, além de aumentarmos o teto do Super Simples e desonerarmos a folha de pagamento. Quanto à hotelaria, já estamos discutindo há algum tempo, um pacote que esperamos seja anunciado pelo Governo, como incentivo para a Copa do Mundo de 2014.
18- Como o senhor avalia as novas regras que estão sendo estipuladas para o setor de cartões de crédito?
Alexandre Sampaio – O setor de cartões ainda é oligopolizado. A instalação de novas empresas internacionais no Brasil, para operação em várias fases do processo de operação é salutar, pois estimula a concorrência. Acredito que somente a criação de uma agencia reguladora, poderia harmonizar interesses, trazer o equilíbrio de taxas, compatíveis com a nova economia e balancear uma relação desigual para com o comércio e serviços no varejo.
19- As normas para a indústria do tíquete refeição não precisam também ser revistas?
Alexandre Sampaio – Igualmente, o melhor seria que esta agencia abrangesse os tíquetes, também no seu universo regulatório.
20- O setor de alimentação fora do lar é um dos maiores geradores de emprego e renda no país. Empresários desse segmento defendem a regulamentação do trabalhador horista, que tem potencial para gerar mais de dois milhões de postos de trabalho no setor. Qual o seu posicionamento sobre esse assunto?
Alexandre Sampaio – Sou totalmente favorável. A atividade de alimentação no varejo possui dinâmica muito variável, de horários, perfis, localização e forma de prestação do serviço. Portanto, adaptar em convenções salariais estas peculiaridades com amparo legal na legislação trabalhista, seria extremamente necessário, pois beneficiaria também o trabalhador, já que se aproximam tempos, em que a escassez de mão de obra será grande. Nos processos horistas, o colaborador, poderia se vincular a mais de um emprego em sua jornada, resultando em melhor remuneração total para o trabalhador.
21- Qual a sua opinião sobre a Lei Antifumo implantada pelo governo de São Paulo e que tem se espalhado por todo o país?
Alexandre Sampaio – Um retrocesso, pois a escolha do ambiente de lazer deve recair no consumidor. A matéria ainda está em discussão jurídica ordinariamente, porém com certeza contribui para a diminuição do faturamento, tem viés autoritário, traz desemprego e cede a argumentos médicos não comprovados, sobre o chamado fumante passivo laboral.
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