Ministro do Turismo
Estabilidade econômica e maturidade política foram fatores fundamentais, segundo o ministro do Turismo, Luiz Barretto, para que o Brasil conquistasse os dois maiores eventos do esporte mundial, a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Nesta entrevista, e ressalta que, assim como aconteceu com a China, Alemanha, África do Sul e em todos os países que já sediaram esses eventos, o Brasil precisa investir em uma série de ações para preparar os destinos brasileiros para o aumento da demanda de turistas.
Em seu planejamento, o MTur pretende investir especialmente em obras de infraestrutura, nas 12 cidades que vão sediar os jogos do Mundial e em qualificação profissional. Serão investidos R$ 440 milhões em programas que visam promover a capacitação e a reciclagem de conhecimento de 310 mil profissionais da cadeia turística. O ministro considera que o Caminhos do Sabor, projeto desenvolvido em parceria com a Abrasel, por ter apresentado resultados bastante positivos, poderá com alguns ajustes ser um bom instrumento para a preparação dos profissionais, tendo em vista esses eventos.
Barreto lembra que, tanto a Copa como as Olimpíadas, são uma oportunidade única para qualquer país do mundo. Um estudo do Ministério do Esporte mostra que os impactos positivos gerados pelos Jogos Olímpicos se refletirão no Brasil até 2027. O mesmo levantamento mostra que as Olimpíadas devem gerar 120mil empregos por ano até 2016 e 130 mil empregos anuais a partir de 2016.
Abrasel – O Brasil está em um momento muito positivo, depois de ser eleito para sediar a Copa de 2014, agora consegue trazer as Olimpíadas de 2016. Em sua visão o que foi determinante para que o País conseguisse conquistar dois eventos tão importantes?
A escolha do Brasil para sediar os dois maiores eventos do esporte mundial resulta da combinação de uma série de fatores, ao mesmo tempo em que demonstra a posição que ocupamos hoje no mundo. Somos um país com estabilidade econômica e maturidade política, onde impera o estado democrático de direito. Um país onde a cada dia aumenta a inclusão social e diminuem as desigualdades regionais. Somos um grande produtor de alimentos, conhecimento e tecnologia, o que nos coloca à frente das mais importantes discussões da agenda mundial.
Temos a maior biodiversidade e a maior rede hidrográfica do mundo, e estamos cada vez mais conscientes da importância do uso sustentável dos nossos recursos. Somos o país do biocombustível, do petróleo, da exportação de aviões. O país da miscigenação e da pluralidade, dono de um patrimônio cultural que é incomensurável.
Abrasel – Em termos de infraestrutura, o País tem mesmo a capacidade para receber e hospedar bem o enorme contingente de turistas que vai receber com a realização desses eventos? Como estão os preparativos?
Tanto a FIFA quanto o COI são organizações extremamente rigorosas, que jamais escolheriam o Brasil se não tivéssemos condições de receber, com excelência e responsabilidade, a Copa do Mundo, em 2104, e as Olimpíadas, em 2016. A China, a Alemanha, a África do Sul e todos os países que já sediaram esses eventos tiveram que reformar estádios, expandir a rede metroviária, aumentar o número de leitos, enfim, investir na qualidade profissional e dos serviços oferecidos, em infraestrutura e mobilidade urbana. Nas Olimpíadas de Pequim, por exemplo, o governo chinês investiu US$ 34 bilhões somente em infraestrutura, o que não inclui a construção de linhas do metrô e de arenas esportivas.
No Brasil não é diferente: também temos uma série de ações a serem implementadas nos próximos anos para que os destinos brasileiros fiquem ainda melhores. Essa é uma excelente oportunidade para anteciparmos investimentos que vão gerar empregos, movimentar a economia, qualificar e integrar ainda mais o Brasil. Não tenho dúvidas de que o Brasil como um todo está se preparando para a Copa e para as Olimpíadas. Nem poderia ser de outra forma, porque temos demandas e prazos a serem cumpridos.
No que compete ao Ministério do Turismo, os preparativos começaram ainda em 2007, com o planejamento de ações que já estão sendo colocadas em prática. É o caso do Programa Olá, Turista!
Abrasel – Que investimentos o Ministério do Turismo fará na Copa do Mundo?
Elegemos quatro eixos de atuação para a Copa do Mundo, que envolvem uma série de ações que também serão aproveitadas para as Olimpíadas de 2016. Mas, independentemente desses eventos esportivos, o MTur sempre destinou recursos para promover a melhoria dos destinos turísticos brasileiros. Nos últimos seis anos, investimos mais de R$ 4 bilhões para a realização de obras de infraestrutura, como a construção de pontes e rodovias, urbanização de orlas, saneamento básico, conservação de patrimônio histórico, sinalização turística, aeroportos regionais, entre outras. Vamos abrir novas frentes de investimentos nas 12 cidades que vão sediar os jogos do Mundial, com a certeza de que o impacto dessas ações será estendido aos municípios próximos e às regiões em que elas estão inseridas.
A qualificação profissional é o segundo eixo para a Copa do Mundo. Nos próximos anos, vamos investir R$ 440 milhões em programas que visam promover a capacitação e a reciclagem de conhecimento de 310 mil profissionais da cadeia turística. Por meio da Embratur, vamos desenvolver uma série de ações para ampliar a exposição do Brasil no exterior antes, durante e depois do campeonato, de modo a aumentar o número de visitantes e a entrada de divisas no país.
O parque hoteleiro é o nosso terceiro eixo de atuação. Estamos trabalhando junto ao BNDES para criar uma linha de financiamento exclusiva para a reforma e ampliação da rede hoteleira no país.
Abrasel – Como o Ministério pretende preparar os estabelecimentos de alimentação fora do lar para receber bem essa demanda de turistas estrangeiros?
O MTur é responsável pela definição e acompanhamento da Política Nacional do Turismo (PNT), mas não nos cabe executar as ações, os projetos e os programas previstos no PNT. Nós firmamos parcerias com entidades de classe que representam diversos segmentos turísticos, incluindo o de alimentação fora do lar, apoiando, desta forma, a execução dessas ações.
Abrasel – O programa Caminhos do Sabor, desenvolvido em parceria com a Abrasel nos 65 destinos turísticos indutores, está sendo um bom instrumento para preparar estes destinos também para esses eventos? Qual a avaliação do Ministério com relação ao desenvolvimento desse trabalho?
O programa Caminhos do Sabor desperta e apoia as comunidades locais para que elas promovam a integração consciente e planejada entre turismo e gastronomia. Desta forma, os destinos têm sua identidade e suas características reforçadas e os turistas se beneficiam de uma experiência mais rica e interessante durante a viagem. Além disso, por meio de consultorias e treinamento, os restaurantes melhoram seu padrão de serviço e de segurança dos alimentos. Tudo isso produz repercussões na satisfação dos turistas. Este programa tem produzido resultados bastante animadores, tanto que estamos fazendo ajustes programa para o aproveitamento do programa em larga escala, tendo em vista a Copa e as Olimpíadas.
Abrasel – Muita gente questiona os gastos que estes eventos vão gerar. Quais seriam, então, as grandes oportunidades que eles trarão em termos de acelerarão investimentos e para o desenvolvimento do País? O que eventos como esses representarão para a economia e para o turismo?
Tanto a Copa como as Olimpíadas são uma oportunidade única para qualquer país do mundo. Um estudo do Ministério do Esporte mostra que os impactos positivos gerados pelos Jogos Olímpicos se refletirão no Brasil até 2027. O mesmo levantamento mostra que as Olimpíadas devem gerar 120 mil empregos por ano até 2016 e 130 mil empregos anuais a partir de 2016.
Além disso, precisamos ter em mente que, desde já, esses eventos ampliam a exposição do Brasil no exterior, o que atrai mais formadores de opinião, mais investidores e mais turistas ao País. Pelo menos 600 mil estrangeiros devem vir ao Brasil durante o Mundial, considerando apenas os 30 dias de jogos. O fluxo turístico nas Olimpíadas deve aumentar em 15% com relação ao ano anterior, o que é um patamar bastante satisfatório, tendo em vista que a média mundial de crescimento girou em torno de 4% ao ano de acordo com a Organização Mundial do Turismo.
Abrasel – O turismo de eventos tem apresentado crescimento? Quais foram os resultados apresentados por esse segmento em 2008, em entrada de receitas e geração de postos de trabalho? E no primeiro semestre de 2009?
O segmento de negócios e eventos é um dos que mais crescem atualmente no Brasil. Segundo o ranking 2008 da International Congress and Convention Association, o Brasil ocupa a sétima posição entre os países que mais recebem eventos internacionais, com a realização de 254 eventos internacionais em 45 cidades no ano passado. Esta é a primeira vez que um país sul-americano aparece entre os dez primeiros lugares na listagem da ICCA. Para se ter uma ideia da evolução do nosso desempenho, em 2003 ocupávamos a 19ª posição.
A Pesquisa do Impacto Econômico dos Eventos Internacionais no Brasil, feita pela FGV a pedido da Embratur, mostra que o impacto econômico direto de 36 eventos analisados entre setembro de 2007 e dezembro de 2008 foi de US$ 35 bilhões. O estudo mostrou também que o gasto médio do turista que vem ao Brasil participar de um evento é de US$ 285, bastante superior à média de gastos dos estrangeiros que vêm a lazer, que é de US$ 73.
Abrasel – O Ministério está fazendo algum tipo de negociação para conseguir linhas de financiamento mais acessíveis para que os empresários dos segmentos de hotelaria, gastronomia, enfim da rede de serviços ligados ao turismo, possam investir na modernização e qualificação para melhor atendimento aos turistas?
Nós estamos em contato permanente com as instituições públicas e temos tido bastante sucesso no aumento de crédito ao setor. Em abril, a Caixa Econômica Federal incluiu as viagens na modalidade do financiamento Caixa Fácil. Com isso, é possível financiar pacotes turísticos em até 24 meses. E não é preciso ser correntista para acessar o crediário – o pagamento pode ser feito tanto em débito em conta como via boleto bancário.
Em junho deste ano lançamos a carteira de crédito Giro Setorial Turismo, fruto da parceria firmada com o Ministério do Trabalho e Emprego, a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil. Com recursos do Fundo de Amparo do Trabalhador, essa linha de financiamento disponibiliza R$ 200 milhões para os prestadores de serviços turísticos financiarem o capital de giro de seus empreendimentos. Como falei anteriormente, estamos negociando com o BNDES uma linha de crédito para a reforma e a ampliação do nosso parque hoteleiro.
Abrasel – Quais são as ações previstas no programa Olá Turista? Como será desenvolvido? Quantas e quais as cidades serão atendidas? E ao todo, quantos profissionais serão treinados?
O programa Olá, Turista! é uma parceria do Ministério do Turismo com a Fundação Roberto Marinho, que oferece cursos gratuitos de inglês e espanhol a profissionais que trabalham diretamente com turistas, como garçons, camareiras e taxistas. Os cursos serão aplicados a distância, mediados por recursos audiovisuais, com o uso de ferramentas de e-learning, tutoria e biblioteca virtuais. Os alunos que não dispuserem da infraestrutura necessária para acompanhar as atividades online, terão à disposição 30 salas equipadas com recursos multimídia e conexão de internet ─ uma iniciativa que também contribui para familiarizar esses profissionais com o uso de novas tecnologias e ferramentas de comunicação. O Mtur investirá R$ 13,9 milhões no projeto, cuja experiência-piloto começou em agosto, com 500 profissionais do Rio de Janeiro e Salvador. No ano que vem, os cursos serão estendidos aos moradores de Manaus, Recife, Fortaleza e São Paulo, além do Rio e da capital baiana. A ideia é expandir essa iniciativa a todas as cidades que vão sediar os jogos da Copa, capacitando 80 mil profissionais em todo País.
Abrasel – Quais os impactos causados pelos recentes episódios de violência no Rio de Janeiro para a imagem do Brasil no exterior, já que ocorreram logo após o País ser escolhido para sediar as Olimpíadas?
Ser escolhido para sediar a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos não significa acabar com todos os problemas brasileiros de uma hora para a outra. Assim como nós, no Turismo, estamos empenhados na estruturação de produtos e serviços turísticos competitivos para oferecer a quem vier assistir aos jogos, as autoridades da área de segurança pública também estão fazendo o seu trabalho. Quero citar um dado muito interessante do Estudo da Demanda Turística Internacional, feito pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo, a pedido da Embratur. O levantamento mostra que 86% dos turistas estrangeiros que estiveram o Brasil entre 2005 e 2007 ficaram satisfeitos com a viagem e avaliaram positivamente o Brasil em quesitos como hospitalidade, transporte público, hospedagem e segurança pública, o que desfaz a imagem de que os estrangeiros não vêm ao Brasil por considerar o país perigoso.
Abrasel – A questão da segurança não será um grande problema que pode fazer com muitos turistas desistam de vir para acompanhar os jogos? Como o governo vai lidar com essa questão da segurança para esses dois eventos?
A segurança é um tema que diz respeito a todos os países do mundo e não apenas ao Brasil. É, antes de tudo, uma atribuição dos estados, conforme determinada a Constituição brasileira. É claro que o governo federal está permanentemente em contato com governadores, prefeitos, secretários e demais autoridades para tratar do tema. Na Copa do Mundo e nas Olimpíadas isso não será diferente.
Abrasel – Quais as ações o Ministério está planejando para trabalhar a imagem do Brasil no exterior e atrair mais turistas?
A promoção internacional do Brasil é desenvolvida pela Embratur, que utiliza como base o Plano Aquarela, cuja próxima edição está sendo finalizada, para ser lançada ainda este ano. Evidentemente, as estratégias para os próximos anos incluem a Copa do Mundo e as Olimpíadas.
Mas, desde já, a Embratur trabalha para disseminar informações sobre o Brasil, tendo em vista que a mídia internacional produz reportagens sobre os aspectos culturais, sociais e econômicos do país-sede da Copa. Também trabalha para mostrar a imagem de um Brasil moderno, que tem uma grande diversidade natural e cultural e um povo extremamente hospitaleiro.
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