Abrasel: Associação Brasileira de Bares e Restaurantes

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Chef Fábio Sicília

Fábio Sicília

Adepto ao Slow Food, um movimento internacional que reúne pessoas apaixonadas por gastronomia, celebra o alimento de qualidade e o prazer da alimentação, o Chef e presidente da Abrasel PA, Fábio Sicília, revela nesta entrevista ao site da Abrasel, os fundamentos dessa nova filosofia e as vantagens em ser um membro dessa “comunidade”. Ele acredita que pelo fato do mundo funcionar em um ritmo cada vez mais frenético, as pessoas tem buscado cada vez mais outras alternativas mais saudáveis de vida e o slow food está vindo com toda a força em contraponto ao fast food. “Esta é uma tendência irreversível”, diz Sicília, que é hoje um dos convivia do movimento no Brasil. Este talentoso Chef é proprietário do restaurante Dom Giuseppe, em Belém (PA). Freqüentou as melhores escolas de Gastronomia como a Cordon Bleu, na França e o Italian Culinary Institute for Foreigners (ICIF), na Itália, onde se formou Chef Master e ministra aulas, em uma faculdade local, na área de alimentos e bebidas. Confira a seguir toda a filosofia do Slow Food na visão de Fábio Sícília.

Abrasel – O que é Slow Food?

Fábio Sicília – O Slow Food é uma associação internacional sem fins lucrativos mantida por seus associados.

Abrasel – Qual a filosofia deste movimento?

Fábio Sicília – Acreditamos que todos têm o direito fundamental ao prazer de comer bem e consequentemente têm a responsabilidade de defender a herança culinária, as tradições e culturas que tornam possível esse prazer. O Slow Food segue o conceito da ecogastronomia, reconhecendo as fortes conexões entre o prato e o planeta. Bom, limpo e justo: é como o movimento acredita que deve ser o alimento que comemos. Deve ter bom sabor; deve ser cultivado de maneira limpa, sem prejudicar nossa saúde, o meio ambiente ou os animais; e os produtores devem receber o que é justo pelo seu trabalho. Somos Co-produtores e não simples consumidores, pois tendo informação sobre como nosso alimento é produzido e apoiando efetivamente os produtores, nos tornamos parceiros no processo de produção.

Abrasel – Qual a importância do Slow Food?

Fábio Sicília – As atividades da associação visam defender a biodiversidade, divulgar a educação do gosto e unir aos co-produtores, aqueles que têm produtos de excelência. Segundo o Slow Food, o prazer de saborear boa comida e bebida de qualidade deve ser combinado com o esforço para salvar os inúmeros grãos, vegetais, frutas, raças de animais e produtos alimentícios que correm perigo de desaparecer devido ao predomínio das refeições rápidas e do agronegócio industrial.

Abrasel – Como é a atuação desse movimento?

Fábio Sicília – Por meio da Arca do Gosto, das Fortalezas (apoiados pela Fundação Slow Food para Biodiversidade) e do Terra Madre, o Slow Food busca proteger nosso inestimável patrimônio gastronômico.

Com relação à Educação do Gosto, o movimento ajuda na redescoberta do prazer de saborear um alimento e na compreensão da importância de conhecer sua origem, quem o produz, como é feito, despertando e treinando nossos sentidos. As atividades do Convivium apresentam aos associados e outros interessados, alimentos e produtores da região, enquanto as Oficinas do Sabor oferecem degustações conduzidas por especialistas no assunto. Junto às escolas, o projeto Hortas Escolares oferece às crianças a oportunidade prática de aprender sobre os alimentos e ver como crescem.

Para colocar em contato os produtores e os co-produtores, o Slow Food organiza feiras, mercados e exposições locais e internacionais, para apresentar produtos de excelência gastronômica e oferecer aos consumidores responsáveis a oportunidade de conhecer os produtores mesmos. Também apóia circuitos alternativos de distribuição como os mercados dos produtores, projetos agrícolas com o apoio da comunidade ou associações de compradores, que contribuem a diminuir a distancia entre os produtores e os co-produtores.

Abrasel – Porque você decidiu fazer parte?

Fábio Sicília – não podermos fechar os olhos para tudo que esta acontecendo no planeta, ja estamos pagando um preço muito alto por isso.

Abrasel – Como voluntário do Slow Food, qual é o seu papel? O que cada voluntário deve fazer?

Fábio Sicília – Os ‘tijolinhos’ de construção da associação são grupos autônomos locais conhecidos como convivia. Eles cultivam a apreciação do prazer e da qualidade da vida diária por meio de reuniões periódicas para compartilhar o prazer da convivência em torno de alimentos da culinária local, da construção de relacionamentos com os produtores, através de campanhas em prol da proteção dos alimentos tradicionais, organizando seminários e degustações, encorajando chefs a usarem alimentos locais, escolhendo produtores para participar de eventos internacionais e promovendo a educação do gosto nas escolas.

As atividades do Convivium são muito importantes para o movimento Slow Food, porque dão vida à sua filosofia. Os eventos e iniciativas organizados pelos convivia locais – desde os mercados de produtores em Beirute, no Líbano, passando pelo festival de filmes sobre alimentos em Mar Del Plata, na Argentina, até os programas de parceria entre Madison, nos EUA, e Mantua, na Itália – lugares onde os membros podem se encontrar para compartilhar a paixão que une toda a rede Slow Food.

Abrasel – Existem graus de hierarquia dentro do Slow Food?

Fábio Sicília – O Slow Food é aberto a todos e a diversidade de seus membros é uma de suas maiores forças. É uma organização formada em torno da base social nos quais os associados estão convidados a desempenhar um papel de primeira mão através da organização de eventos, ou simplesmente participando de atividades locais, nacionais e internacionais. Os associados podem se juntar aos comitês dos convivia ou abrir um convivium novo. Eles são parte de uma comunidade local, porém também são atuantes numa rede mais ampla do Slow Food Internacional. Como um membro do Slow Food, você ajuda a mudar o sistema de alimentos, e se torna parte de uma rede internacional de produtores e co-produtores de pensamento semelhante, dando assistência e apoio à produção sustentável de alimentos e à distribuição e promoção de projetos educacionais em todo o mundo. Seu cartão de associado Slow Food por si só já é um benefício ético.

Os benefícios tangíveis de ser associado variam de país para país, mas de maneira geral incluem: um cartão de sócio pessoal e uma cópia do Manual Slow Food (para os associados de primeira viagem); um exemplar do Almanaque Slow Food, um panorama anual de tudo o que acontece no mundo Slow Food; um boletim eletrônico mensal chamado Slow Food Times; revistas impressas, onde disponíveis; descontos em eventos Slow Food locais, nacionais e internacionais – desde banquetes sazonais a festivais de cinema, de turnês por áreas agrícolas até oficinas do gosto – e também em mercadorias
Slow Food.

Abrasel – O que é um Convivium?

Fábio Sicília – As nossas estruturas locais recebem o nome de Convivium e è através destes grupos locais que se expressa a nossa cultura da convivência. Os nossos membros se reúnem nos Convivia para aproveitar dia por dia dos prazeres que pode oferecer a alimentação. Slow Food foi fundada sobre a base do direito ao prazer e a responsabilidade de proteger o patrimônio gastronômico, cultural e tradicional que o acompanha.

Nossos Convivia são a expressão local da filosofia Slow Food. Eles articulam relações com os produtores, fazem campanhas para proteger alimentos tradicionais, organizam degustações e palestras, encorajam os chefs a usar alimentos regionais, indicam produtores para participar em eventos internacionais e lutam para levar a educação do gosto às escolas. E, o mais importante: cultivam o gosto ao prazer e à qualidade de vida no dia-a-dia. Cada um dos nossos 80.000 associados ao redor do mundo faz parte de um Convivium. Todos os associados podem participar nos eventos dos convivia em qualquer parte do mundo.

Atualmente são mais de 850 convivia Slow Food pelo mundo afora: de Dublin à Nova Deli, de Nairobi à Nagoya. As atividades dos convivia divulgam pelo mundo todo a filosofia do movimento e conectam os produtores de alimentos à grande rede Slow Food. Os convivia são a espinha dorsal do Slow Food e eles se tornam possíveis somente pelo incansável trabalho dos associados que, voluntariamente, se dispõem a usar seu tempo e energia para realizar os ideais do Slow Food.

Abrasel – Como se forma um Convivium?

Fábio Sicília – Na qualidade de futuro líder de convivium, o primeiro passo consiste em selecionar pelo menos cinco pessoas para poder abrir um Convivium. Estes indivíduos devem ser pessoas – não podem ser empresas ou outras entidades – que apóiem a Slow Food e aquilo que a Associação representa. A seleção pode decorrer durante a primeira reunião do grupo antes da criação do Convivium, ou então pode contatar diretamente as pessoas que tenciona convidar. Muito provavelmente estas pessoas formarão o primeiro Comitê fundador e exercerão as funções de tesoureiro, secretário e outras funções de coordenação, todas de natureza voluntária. Apenas associados com as quotas associativas em dia podem ser sócios fundadores de um Convivium. Se você ou uma das cinco pessoas que pretendem formar um Convivium não forem associados inscritos regularmente, devem renovar a inscrição ou associar-se ao Slow Food no momento do envio da cópia assinada da ficha para criar um Convivium. Esta ficha será enviada juntamente com outros documentos pelo Slow Food Internacional.
O primeiro encontro para dar vida ao Convivium pode ter lugar em qualquer momento e em qualquer local, com a participação de um qualquer número de pessoas. Estes podem até não ser associados Slow Food mas devem no entanto estar interessados na criação e na participação na vida do Convivium.

Abrasel – Como funciona uma Comunidade do Alimento?

Fábio Sicília – O termo comunidade do alimento foi cunhado em 2004, para o evento Terra Madre, que reuniu produtores de alimentos em pequena escala provenientes de todos os 5 continentes para debater questões comuns e compartilhar seus pontos de vista. Ela define o local de origem desses produtores e reflete uma nova idéia de uma ‘economia local’ baseada na alimentação, agricultura, tradição e cultura. Nestas comunidades, a centralidade do alimento conduz a um tipo de economia que é sustentável e viável, tanto no contexto de países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento. Esta economia ‘baseada na natureza’ substitui a mão invisível do mercado por outra mais benevolente, porém rígida, que é da nossa Mãe Terra. Na rede mundial Slow Food, as comunidades locais de alimento são o núcleo que efetivamente implementam uma abordagem sustentável dentro do conceito ‘bom, limpo e justo’ em relação à produção alimentar, protegendo a biodiversidade, mantendo vivas as tradições, promovendo a convivência e transmitindo o conhecimento para as gerações seguintes. Em nosso mundo globalizado de hoje, a economia de mercado está mostrando todas as suas limitações em termos de desperdício e dano ao meio ambiente. As micro-economias das comunidades locais de alimento na rede Slow Food trabalham ou possuem o potencial de trabalhar de forma remunerada, que é compatível com seus próprios ecossistemas e culturas.

Abrasel – Neste mundo frenético, onde as pessoas não têm muito tempo, você acredita que esta filosofia vai pegar?

Fábio Sicília – Sim, pois o mundo está ficando impossível.

Abrasel – É possível aos restaurantes se adequarem ao Slow Food?

Fábio Sicília – Sem dúvida, a cada dia que passa seja por acreditar na filosofia, seja por interesse comercial, esta é a nova uma tendência irreversível.

Abrasel – Quais as vantagens para os restaurantes ou para os produtores em fazer parte deste movimento?

Fábio Sicília – Para o restaurante, mais qualidade em todos os sentidos, responsabilidade social, economia solidária, etc…

Abrasel – Qual é a posição do Slow Food em relação aos transgênicos (organismos geneticamente modificados)?

Fábio Sicília – Enquanto obviamente não nos opomos à pesquisa feita por universidades e órgãos públicos, o Slow Food se posiciona contra o plantio comercial de culturas modificadas por engenharia genética. Somos capazes de transplantar um gene de uma espécie para outra, mas ainda não somos capazes de prever ou conter os resultados, que poderiam criar uma ameaça à nossa biodiversidade natural e agrícola. Outro problema com o cultivo de culturas de OGMs é a sua tendência de escolher quais cultivos devem ser tirados das mãos dos fazendeiros. Quando o pólen de campos geneticamente modificados forem levados pelo vento a muitos quilômetros dali para polinizar os campos convencionais ou orgânicos, os fazendeiros estarão colocando seu trabalho e seu capital na colheita de produtos que não plantaram e sem saber. O Slow Food acredita que todos os produtos contendo ingredientes geneticamente modificados devem ser informados com precisão nos rótulos para permitir que os consumidores façam uma decisão informada ao adquiri-los.

Abrasel – Que tipo de evento vocês organizam?

Fábio Sicília – Freqüentemente com o apoio das entidades nacionais, os convivia Slow Food organizam centenas de eventos nacionais e regionais. Por exemplo… Algusto, Saber y Sabor, em Bilbao, na Espanha (uma feira de grandes proporções que apresenta um mercado de alimentos, uma enoteca, os Teatros do Gosto, Oficinas do Gosto, palestras e jantares. O Slow Food Nation,
em São Francisco, nos EUA, onde centenas de agricultores dos EUA e artesãos da comida apresentaram um extraordinário leque de alimentos e técnicas de preparo. Degustações, música, palestras, fóruns, oficinas, filmes e exibições em favor de um sistema de agricultura que seja ‘bom, limpo e justo’. Outro bom exemplo é o Terra Madre Brasil, Brasil, um evento realizado em 2007 em colaboração com Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA e representou um momento de encontro e troca de experiências entre os três pilares fundamentais da Rede – comunidades do alimento, chefs de cozinha e acadêmicos – e os líderes dos convivia Slow Food do Brasil. E por aí vai…

Abrasel – Como o Slow Food é financiado?

Fábio Sicília – Contribuições das Associações Nacionais 40%; contribuições de outros paises 15%; patrocinadores e outras fontes 45%

Abrasel – O Slow Food tem regras quanto à captação de fundos e patrocínios? Para onde vai a quota associativa que o movimento recebe?

Fábio Sicília – A associação internacional recebe a maior parte de suas verbas das anuidades dos associados e contribuições de patrocinadores. As contribuições do Salone del Gusto e outros eventos internacionais proporcionam os fundos e o lucro das mercadorias e a venda de livros também contribuem para com o financiamento do movimento Slow Food. As nove associações nacionais Slow Food recebem as anuidades dos seus associados, bem como fundos adicionais de outras fontes, tais como patrocinadores e instituições. O Slow Food Itália, que é a associação nacional mais antiga, desfruta das formas mais desenvolvidas de captação de verbas, incluindo a editora para fins lucrativos Slow Food Editore. Outra ramificação com fins lucrativos do Slow Food Itália é o Slow Food Promozione, que organiza eventos de grandes proporções, vende espaços publicitários em suas publicações e organiza patrocínios que atendem a filosofia Slow Food. De acordo com o estatuto, o Slow Food Editore e o Slow Food Promozione reinvestem toda sua renda na organização. O Slow Food segue orientações para angariar fundos que foram projetadas para criar parcerias de longo prazo com doadores e patrocinadores baseada na compreensão mútua e numa filosofia compartilhada. Doadores e patrocinadores não podem conduzir atividades que entrem em conflito com a filosofia do movimento, e o Slow Food conserva total autonomia sobre suas próprias escolhas e atividades. As orientações completas para angariar fundos estão disponíveis no site http//:www.slowfood.com

Abrasel – Como é possível usar a logomarca do Slow Food em produtos ou restaurantes?

Fábio Sicília – Não, o logotipo Slow Food é uma marca registrada e só pode
ser usada em conexão com os eventos nacionais, internacionais e do convivium Slow Food. As orientações para o uso do logo Slow Food estão disponíveis no site http//:www.slowfood.com

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