O empresário português Ricardo Santos Neto, que adotou o Brasil há mais de três décadas, insiste na teoria de que o País pode e deve ocupar um lugar de destaque no cenário mundial. Para isso, ele diz que é necessário promover o desenvolvimento de pequenas e médias empresas da América Latina, tornando-as exportadoras não apenas de insumos, mas principalmente de produtos com valor agregado.
Para ele o Brasil ainda não conseguiu conectar adequadamente produção, industrialização e comercialização de produtos com valor agregado. Assim, as commodities seguem avançando sobre os manufaturados e países como a Alemanha, continuam sendo grandes exportadores de café, sem plantar um pé sequer.
Ricardo Santos acredita que os empresários brasileiros podem se organizar para conquistar novos mercados no exterior e manda um recado: É preciso que eles façam com que as suas entidades de classe coloquem a “boca no trombone” e “puxem a orelha” do governo. Não basta ajudar com um “dinheirinho” na promoção. Deve haver um projeto “Da terra à mesa” brasileira e estrangeira.
O fundador da Fispal (a maior feira do setor de alimentos do País), que recentemente foi vendida Brazil Trade Shows Partners S.A, fala ainda nesta entrevista ao site da Abrasel, sobre a mudança no controle acionário da Fispal que, para ele, será muito positiva para o setor de feiras, dando mais visibilidade e um novo perfil ao segmento.
Confira:
Abrasel – A Brazil Trade Shows Partners S.A. anunciou no dia 24 de setembro a aquisição de 100% do capital social da Fispal. Como fundador da Fispal, como o senhor avalia esse novo controle acionário e o que vai significar para a principal promotora de feiras do setor de alimentos e bebidas no País e para o próprio segmento essa mudança?
Ricardo Santos – A presença da Brasil Trade Show S.A. será certamente muito positiva. O setor de feiras de negócios brasileiro tem identidade própria, criatividade e um know-how de classe mundial. Estou seguro que, daqui por diante, as feiras ganharão mais visibilidade e criarão um novo perfil para que, definitivamente, sejam percebidas como um instrumento fundamental para desenvolvimento econômico. Espero, sinceramente, que surjam os investimentos e a vontade política necessária para que o setor passe a contar com a infra-estrutura e os serviços requeridos para o seu desenvolvimento.
O mesmo se aplica ao setor de alimentos e bebidas. Acredito que a força da marca Fispal, combinada à capacidade de gestão e de investimento da Brazil Trade Show, criarão ainda mais valor à participação das empresas nacionais e internacionais, nos atuais e futuros eventos do portifólio.
Abrasel – Com relação ao desempenho do setor de alimentação fora do lar no Brasil em 2007, o segmento está em uma boa fase? Qual é o panorama atual?
Ricardo Santos – Acredito que a fase é boa. Gradativamente, a indústria tem se dedicado a entender e atender melhor o canal; a distribuição porta-a-porta apresenta uma evolução; os operadores, mais organizados, estão cada vez mais orientados à prestação de um melhor serviço; e o governo parece ter acordado para a oportunidade de desenvolvimento econômico e social que o setor apresenta.
Abrasel – Em sua opinião, quais são os principais desafios que o setor enfrenta para crescer?
Ricardo Santos – O desenvolvimento da indústria em âmbito regional aliviaria os custos e ofereceria melhor performance ao sistema de distribuição; a indústria precisaria ter mais coragem para inovar e lançar novos produtos orientados ao canal, já que existe uma demanda reprimida por parte dos operadores; e o sistema de distribuição especializada deveria ser ampliado e aperfeiçoado com mais velocidade. À medida que estes três fatores se desenvolvam, o operador poderá se dedicar mais e melhor à gestão do estabelecimento, melhorando, portanto, a sua rentabilidade e a qualidade do serviço prestado.
Abrasel – A gastronomia hoje é considerada um diferencial competitivo para os setores de turismo e economia em diversos países. No caso do Brasil, qual o potencial da gastronomia brasileira e como ela deve ser trabalhada neste sentido?
Ricardo Santos – Felizmente, a Abrasel, em parceria com o Ministério da Agricultura/Embratur, ergueu esta bandeira. O potencial é enorme e os resultados já são percebidos. Para multiplicá-los com mais velocidade, entendo que outras organizações públicas e privadas deveriam se aglutinar a este movimento para apoiar a indústria genuinamente nacional, e utilizar a gastronomia como estratégia de acesso a mercados e ativação do turismo de lazer e de negócios. A embalagem dos produtos alimentícios deveria ser entendida como meio de comunicação para os conceitos e destinos gastronômicos brasileiros. Particularmente, adoraria ver uma linha de produtos brasileiros com a marca Brasil Sabor – do Festival Gastronômico da Abrasel – nos restaurantes e prateleiras de supermercados do mundo.
Abrasel – O Brasil é um país agrícola por vocação. O senhor acredita que o governo brasileiro tem trabalhado de forma eficiente para transformar a atividade agrícola em um agro negócio, da colheita às linhas de produção?
Ricardo Santos – Infelizmente o Brasil ainda não conseguiu conectar adequadamente produção, industrialização e comercialização de produtos com valor agregado. As commodities seguem avançando sobre os manufaturados e a Alemanha, apenas para citar um exemplo, continua sendo o maior exportador de café do mundo, sem plantar um pé sequer.
Diversas instituições do governo, desarticuladas, ainda atuam isoladamente. Por não haver um projeto nacional, as commodities são livre e diretamente exportadas; o desperdício junto à produção é assustador; as multinacionais ditam as regras do jogo; e as pequenas e médias indústrias brasileiras, base do setor de alimentos de qualquer país, “morrem”, ou, quando crescem, são compradas. Um cenário lamentável.
Abrasel – Houve crescimento na exportação de produtos manufaturados ou o país ainda está muito focado na exportação de matéria prima? Quanto às questões relativas à logística, o Brasil está preparado para se tornar um país mais industrializado?
Ricardo Santos – De 1994 a 2005, a exportação de produtos alimentícios no Brasil avançou 21%. Uma performance medíocre, quando comparada ao Chile, com 132%, e o México, com 61% – primeiro e segundo lugar em crescimento de volume de exportação no ranking mundial, respectivamente. O Brasil tem tudo para ser a principal potência alimentar do mundo – ainda tem 300 mil km2 de terras disponíveis para a produção, a mais reserva do mundo. De novo, falta projeto, e, quando o assunto é exportação, o gargalo mais evidente é o logístico. Enfim, infelizmente a iniciativa privada anda sozinha e o governo, sem foco, corre atrás da máquina.
Abrasel – O senhor sempre diz que o empresário brasileiro não sabe exportar. Na Fispal Latino em Miami, como tem sido a participação brasileira? Qual o panorama do mercado americano para os produtos brasileiros? A gastronomia do nosso país é sucesso nos EUA?
Ricardo Santos – De fato o empresário brasileiro está aprendendo a exportar, resultado de uma curva de aprendizado inerente à recência da abertura econômica e à dimensão do mercado interno. A participação no Brasil na Fispal Latino, mesmo apresentando a maior delegação entre os 15 países presentes em 2007, ainda é muito tímida e centralizada no Estado de São Paulo graças ao apoio do Governo do Estado e do Sebrae/SP. A gestão anterior da Apex, por miopia, não apoiou o projeto dificultando o acesso de diversas empresas de outros estados brasileiros.
O panorama é muito favorável para os produtos brasileiros, pois o país tem carisma, é tido como exótico e está na moda. Países com uma oferta mais restrita de produtos como o Peru e Chile ocuparam um espaço importante. Quanto à gastronomia brasileira, não fosse o grande sucesso do Brazilian Steakhouse – as nossas churrascarias – teríamos uma participação muito tímida, orientada somente às comunidades brasileiras distribuídas pelo país. Ainda há muito por fazer para seduzir o consumidor norte americano.
Abrasel – Qual o tamanho do mercado latino hoje nos EUA?
Ricardo Santos – Os 44 milhões de latinos legais (14.8% da população) consomem quase US% 700 bilhões, sendo US$ 92 bilhões em alimentos e bebidas.
Abrasel – Como os empresários brasileiros podem se organizar para conquistar novos mercados no exterior?
Ricardo Santos – Fazendo as suas entidades de classe apoiar-se para colocar a “boca no trombone” e “puxar a orelha” do governo. Não basta ajudar com um “dinheirinho” na promoção. Deve haver um projeto “Da terra à mesa” brasileira e estrangeira.
Abrasel – Quais são as novas tendências no mercado de alimentação fora do lar e como está a relação entre a indústria e o mercado de varejo?
Ricardo Santos – A tendência é, a exemplo do que acontece no supermercadismo, a distribuição foodservice gerar seu portifólio de marcas próprias. São eles que têm contato diário com o operador e, portanto, sabem o que ele precisa. Sozinha, a indústria tem muita dificuldade de entender e, logo, investir no setor. Isto é o que acontece nos EUA, onde empresas como a Sysco, com um faturamento de US$ 30 bilhões/ano, desenvolvem, em parceria com a indústria, produtos inovadores em sabor, embalagem, funcionalidades e conveniência.
Abrasel – Quais são as perspectivas para o futuro?
Ricardo Santos – Não creio que alimentação fora do lar no Brasil atinja a participação de 52% na distribuição que hoje o mercado norte americano apresenta. Mas, acredito que ainda haja uma boa elasticidade. Também não vejo a formação de grandes cadeias de restaurantes como as americanas, pois o brasileiro ter outro comportamento de consumo. Entendo que outros seguimentos do canal, hoje com menor participação, vão se desenvolver fortemente; que indústria e a distribuição deverão, inevitavelmente, se alinhar para atender o setor; e que, com isso, haverá uma longa curva de crescimento. O setor, sem dúvida, aspira ser um dos mais importantes da economia nacional. Reúne todas as condições para isso.
Abrasel – Para finalizar, o seu comentário como fundador da Fispal sobre a importância da parceria entre a empresa e a Abrasel para o desenvolvimento do setor de alimentação?
Ricardo Santos – Em 24 anos de dedicação quase que integral ao setor de alimentos, nunca vi uma entidade nacional tão mobilizada, motivada e capilar como a Abrasel. Com muita seriedade e profissionalismo, a Abrasel foi e continua sendo incansável para criar um melhor perfil para a alimentação brasileira, dentro e fora do País. Os meus mais sinceros cumprimentos aos associados, diretores, presidentes e ao Conselho de Administração liderado pelo amigo Paulo Solmucci. Concluo agradecendo pelo apoio a Fispal quando sob a nossa gestão, fazendo votos de que a parceria siga adiante e me colocando à disposição para contribuir com idéias sempre que necessário e oportuno.
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