Abrasel: Associação Brasileira de Bares e Restaurantes

Atualidade

Eraldo Alves da Cruz - Presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis

O vice-presidente do Eron Brasília Hotel , o paulista Eraldo Alves da Cruz, se formou na Escola de Comércio e na Escola Superior de Administração de Empresas e fez carreira no turismo, sendo o primeiro fundador e presidente do Sindicato das Empresas de Turismo do DF. Com uma visão técnica apurada e arrojado senso crítico, o presidente da ABIH, por meio de um trabalho sério, eficiente e de qualidade, está promovendo a consolidação e expressividade do segmento turístico nacional, especialmente no que se refere as causas da hotelaria brasileira.

Nesta entrevista para a Abrasel, ele analisa o comportamento do setor de turismo nos últimos dois anos e aborda questões polêmicas que influenciam diretamente no desenvolvimento e na performance do setor de turismo no país, como a flexibilização da emissão de vistos para países emissores e o “festival” dos cruzeiros marítimos na costa brasileira. Eraldo faz também uma avaliação da gestão do Ministro Walfrido, frente ao Ministério do Truísmo e fala sobre as expectativas do setor para a atuação da ministra Marta Suplicy. Confira abaixo a entrevista!

Abrasel - A CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara dos Deputados aprovou no dia 17 de maio o PL 2430/03, do deputado Carlos Eduardo Cadoca (PMDB-PE), que flexibiliza a emissão de visto de entrada no Brasil para os países emissores. Quais serão, na visão da ABIH, os benefícios concretos deste Projeto de Lei?

Eraldo Cruz - Os grandes países emissores, como USA, Canadá, Austrália, Japão e Nova Zelândia, que nós brasileiros temos exigido visto, têm juntos 438 milhões de pessoas com uma renda per capta anual da ordem de US$ 35.000 dólares americanos. Em suas viagens gastam em média U$ 1.000,00 com passagem e hotel. Os Estados Unidos enviam para América latina quase cinco milhões de turistas ano. Em 2006 recebemos 732 mil americanos. A Argentina, e Chile recebem muito mais americanos do que o Brasil. Os USA exigem vistos dos Argentinos e Chilenos, mas estes não exigem dos americanos. Se fizermos o mesmo poderemos a médio prazo dobrar o número de americanos com aportes na ordem de mais de 1 bilhão de dólares ano, sem contar os outros países, o que nos faz arriscar dizer que seriam aportes novos na ordem de 2 bilhões. Fora o turismo de lazer,  o corporativo também teria reflexos positivos, pois muita gente deixa de fazer negócios com o Brasil em razão das barreiras de visto e imigratórias.

Abrasel - Existem ainda muitas questões que podem obstruir a sua aprovação no Plenário da Câmara? Quais são os principais pontos de divergências?

Eraldo Cruz - Não será tarefa das mais fáceis. Na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania demorou no último estágio no dia da votação três horas, com exaustivos discursos. No plenário poderá tomar grandes proporções e são imprevisíveis as reações. Há deputados que alegam de forma equivocada a perda da soberania, como se não pudéssemos pedir aos americanos para que tirem os sapatos quando pedem o mesmo, para que possamos ingressar em território americano. Visto é uma coisa, alfândega e entrada no país são outra bem diferente. Eu tenho visto para o USA, mas se eles invocarem comigo na entrada, me mandam voltar. Poderemos fazer o mesmo aqui. Outros deputados acham que não deveríamos nominar os países no projeto porque fere princípios constitucionais. Eles dizem que cabe ao Presidente regular as relações entre os países e que o correto é que o presidente tenha o direito de liberar por decreto para os países que ele desejar. Alguns alegam o princípio da reciprocidade. Se o japonês abrir, nós abrimos se fechar nós fechamos. Este princípio na prática não existe, porque se um brasileiro matar alguém em território americano ele pode ir para cadeira elétrica e se um americano matar alguém no Brasil, pode no máximo pegar prisão perpétua. Se houvesse reciprocidade, os pilotos do Legacy ainda estariam aqui respondendo a inquérito. Será que teriam deixado os brasileiros saírem da América se o acidente fosse por lá?? O X da questão é que o Itamaraty sofre cortes em seu orçamento como de resto todos os outros e por isso se utiliza dos recursos dos vistos elevados a milhões de dólares por ano e não quer abrir mão disto. É preciso convencê-los da necessidade da abertura e sobretudo garantir-lhes o dinheiro que precisam para suas operações consulares.

Abrasel - A ABIH Nacional e outras entidades ligadas ao setor de hotelaria já se manifestaram no sentido de cobrar do Governo Federal e do Congresso Nacional medidas efetivas para combater o que se classifica como “festival” dos cruzeiros marítimos na costa do Brasil. Como está o andamento desta questão?

Eraldo Cruz - No dia em que estivemos em audiência com o ministro Walfrido capitaneados pelo nosso querido presidente da Abrasel Nacional, Paulo Solmucci, pedimos ao ministro que intercedesse em nosso favor articulando contatos junto ao Ministério dos Transportes para regular a entrada de navios de cabotagem. Ele anotou tudo e nos prometeu agir e temos certeza ele o fará. A questão é complexa, pois existem leis que respaldam as empresas de navegação e mudanças em lei são complexas. Precisamos agir rápido ainda que venha a ser por medida provisória.

Abrasel - Vocês tiveram algum retorno do governo sobre o assunto?

Eraldo Cruz - Ainda não, mas estamos próximos porque o assunto esquentou e de norte a sul só se fala disto. A queda na hotelaria é enorme e daqui a pouco será também para os restaurantes, porque com o sistema ‘all inclusive’ (tudo incluído) quem vai comer na cidade visitada?

Abrasel - Como a ABIH enxerga o cenário atual do turismo brasileiro?

 

Eraldo Cruz - Enxergo de forma construtiva e positiva. Reconhecemos muito o trabalho do ministro Walfrido e do presidente Lula. Estamos começando a gostar também da atuação da ministra Marta que tem se mostrado sensível aos problemas da hotelaria. Do ponto de vista de mercado estamos preocupados com a estabilidade do dólar que tem nos ocasionado perdas, com a proliferação de cruzeiros marítimos e a lenta recuperação das diárias de balcão de cinco anos atrás.

Abrasel - Como foi o comportamento do mercado em 2006 e como foi no primeiro trimestre de 2007?

Eraldo Cruz - Em 2006 o mercado apresentou um ligeiro crescimento. 2005 foi melhor porque não teve o apagão aéreo, a copa do mundo e a paralisação das atividades da Varig. O primeiro trimestre de 2007 vem evoluindo, mas estes cruzeiros marítimos e ainda a questão da irregularidade dos vôos está nos afetando de forma intensa.

Abrasel - Qual a avaliação da ABIH da gestão do Turismo nos últimos quatro anos e qual a expectativa para a gestão da Ministra Marta Suplicy?

Eraldo Cruz - Os últimos quatro anos deram cor e forma ao turismo brasileiro. O ministro Walfrido é um craque. É administrador e trabalhou com metas. Cumpriu grande parte delas e teve integral apoio do presidente Lula que demonstrou a maior vontade política já vista no turismo brasileiro. A ministra Marta tem pouco tempo no cargo, mas nos últimos contatos que tivemos com ela gostamos da forma com que abordou o trade, com uma conversa franca, e dados que mostram que ela está exercendo bem as suas funções. Ela tem buscado fortalecer o turismo interno e as ações de capacitação profissional. Está priorizando as ações que já estavam em andamento na gestão Walfrido, mas que agora ela quer dar maior destaque. Ela quer os aposentados viajando por todo o Brasil e novos clientes para todos e isto é muito bom. Pois só seremos fortes se o turismo interno for forte e nisto concordamos muito com ela. Como ela vem dando uma demonstração inequívoca de equilíbrio político, sem maiores vaidades por cargos e manteve os postos chave do Ministério do segundo escalão, achamos que isto vai nos proporcionar a consolidação de uma equipe de profissionais já azeitados e prontos para agir. Não estávamos acostumados a isto. Até então achávamos que cada Ministro mudava toda a estrutura. A Marta tem tudo para acertar. Não poderia esperar outro comportamento de uma mulher que exerceu a honrosa função de prefeita da maior e mais rica capital do país.

Abrasel - A Ministra anunciou o novo Plano Nacional do Turismo, que segundo ela pretende priorizar os segmentos da população que não têm muitas condições para viajar. A Ministra disse que isso será feito por meio do crédito consignado, que será oferecido inicialmente a aposentados, numa ação em conjunto com a Caixa Econômica Federal e Ministério da Previdência, o brasileiro terá acesso a linhas de crédito com juros inferiores a 1,30%. As operadoras terão condições de organizar pacotes atraentes para este público-alvo?

Eraldo Cruz - Acima falamos um pouco sobre isto. O mercado de agentes de viagens e operadores terá de mudar seu foco e evoluir criando pacotes novos e mais em conta. Mecanismos como o VAI Brasil e Portal de Hospedagem podem ajudar a alcançar este intento. O crédito em conta já é usado em outros setores da economia e muito para emprestar dinheiro para o trabalhador. Agora será usado para dar lazer e dignidade as pessoas fazendo-as conhecer bem o Brasil. Acho uma boa medida. Este plano da Ministra é voltado para o mercado interno e é uma medida acertada. Outra medida é fazer andar mais rápido os clubes de férias que vendem mensalmente com prestações módicas planos de utilização de hotéis e pacotes para todos os gostos. Se casarmos todas as intenções e propostas que já existem pode dar um bom samba.

Abrasel - Quais outras ações precisam ser priorizadas pelo Ministério para proporcionar um desenvolvimento maior ainda para o setor?

Eraldo Cruz - O turismo interno terá nova atenção da ministra Marta, com isto precisamos melhorar a infra-estrutura dos pólos turísticos. É preciso integrar as regiões e fazer com que o turismo seja despertado nos estados brasileiros. Muitos estados não crescem porque falta vontade política de seus governantes. Se a ministra percorrer o Brasil e despertar vontade política nos governadores será o poder federal dando exemplo. Não adianta os carros chefe acelerarem e alguns estados com grande potencial ficarem patinando a vida inteira e deixando o tempo passar. Muitos governadores não priorizam o turismo, pois ainda o tem como algo que existe só para compor o terceiro setor. O ministério precisa também despertar nos brasileiros a vontade de viajar nos períodos de baixa estação, mas antes de fazer as publicidades precisa ouvir os setores envolvidos. Não podemos continuar a lançar mídias só com a vontade governamental. A publicidade do VAI Brasil não deu muito resultado e a priori parecia que ia dar certo, mas tenho dúvidas que alguém se lembre dela. É preciso algo criativo, objetivo, inovador e que marque definitivamente o setor no país. Algo para ser lembrado. Muitas publicidades marcam e ficam na história, precisamos encontrar um caminho assim.

Abrasel - Com relação à qualificação profissional para os serviços ligados ao turismo, o senhor acredita que o setor está bem preparado para atender à demanda? Quais ações a ABIH tem realizado neste sentido?

Eraldo Cruz - Este é um assunto importantíssimo e ainda estamos longe de atender nossas necessidades. Precisamos encontrar caminhos de ensino modernos e que tenham alcance mais amplo. Talvez pela TV digital, e o famoso ensino a distância. O formato do ensino deve também ser prático e de fácil acesso com linguagem própria. O setor não está bem preparado e ainda falta muito para conseguirmos este intento. A ABIH Nacional tem realizado várias ações e a principal delas é o programa de competitividade hoteleira quando distribuímos já 11 mil kits compostos de cinco apostilas práticas. Agora os participantes ganharão uma sexta com capítulos importantes sobre o código de conduta do hoteleiro por meio do qual ele poderá saber como agir em determinadas situações e apoiar sempre os direitos do consumidor. Além disso nesta apostila tem um importantíssimo capítulo sobre o combate a exploração sexual infanto juvenil. Estamos fazendo a nossa parte, mas precisamos triplicar estas ações se quisermos efetivamente melhorar nosso produto turístico.

Abrasel - Qual sua avaliação de projetos como o Programa Qualidade na Mesa, realizado pela Abrasel para qualificação do setor de alimentação fora do lar?

 

Eraldo Cruz - É um dos melhores programas já lançados no turismo brasileiro. É visível e perceptível a melhora dos restaurantes, o interesse deles na competitividade e até mesmo a união do setor.

Abrasel - Qual a contribuição que a gastronomia brasileira tem dado para o desenvolvimento do turismo no Brasil?

Eraldo Cruz - Não existe turismo sem gastronomia, sem valor agregado, sem características típicas e a gastronomia do Brasil é um dos fatores que prende o turista fazendo com que ele goste mais do nosso país. A Abrasel vem fazendo um trabalho muito bom, com o programa de alimento seguro que queremos seja expandido para a hotelaria. O BRASIL SABOR é umas das melhores coisas que já foram criadas. Se você vai a uma cidade quer logo saber se já existe o Brasil Sabor e onde está o folder para escolher o restaurante. Muito bom o trabalho da Abrasel. Este trabalho fez com que muitos restaurantes criassem gosto pela competição e começaram a melhorar seus serviços. O Brasil Sabor é um importantíssimo meio de inclusão da restauração no roteiro Brasil.

Abrasel - A Anvisa colocou em consulta pública uma proposta de resolução que obriga a criação e funcionamento de salas especiais destinadas exclusivamente ao consumo de cigarros e similares em todos os recintos de uso coletivo, públicos ou privados, incluindo bares, restaurantes, danceterias e todos os demais tipos de varejo? Como a ABIH avalia esta proposta e quais os efeitos teria sobre o setor hoteleiro e de turismo como um todo?

Eraldo Cruz - Tanto a Abrasel, como a FNHBRS e também a nossa ABIH tem tido um papel preponderante nesta questão. Não é possível mudar uma situação de forma tao drástica. Existem muitos fumantes e eles são seres humanos como todos os não fumantes. Existem meios mecânicos eficientes de separar os ambientes, e estes devem ser levados em conta. Todos concordamos que deva existir áreas fumantes e não fumantes, mas não podemos é concordar com a proibição absoluta de áreas fumantes. O mercado tende a normatizar e a direcionar o comportamento dos clientes. Se a tendência for a de ter área para não fumantes em todo o lugar isto ocorrera naturalmente. A livre iniciativa é para ser praticada e por meio dela exercemos também os mais nobres conceitos da verdadeira democracia.

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