13/09/2017 - Restaurante Xapuri: o legado de Dona Nelsa


ARTIGO - Por Paulo Solmucci

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Gastronomia é cultura. O ministro disse que fará tudo o que puder para incluí-la na Lei Federal de Incentivo. Ele está certo, certíssimo. Quando ouvi o seu discurso, lembrei-me logo de um restaurante de Belo Horizonte, localizado nas proximidades da Lagoa da Pampulha, berço da moderna e bela arquitetura brasileira que Oscar Niemeyer projetou ao mundo.

O restaurante é o Xapuri, fundado há 30 anos, em 22 de agosto de 1987, por dona Nelsa Trombino. A fala do ministro Sérgio Sá Leitão ecoou no enorme salão, em que 600 convidados presenciavam a solenidade de abertura do Congresso Abrasel, em Brasília, no dia 16 de agosto.

Quando ele prometeu levar a cabo a missão de incluir a gastronomia na lei de incentivo, pensei logo nos milhares de protagonistas, como a dona Nelsa, que estão presentes neste Brasil brasileiro, mulato inzoneiro. Eles mantêm aceso um riquíssimo patrimônio cultural que se transmite de geração a geração, por meio das inesgotáveis memórias gustativas e afetivas.

Sérgio Sá Leitão pronunciava aquele discurso 22 dias depois de ter tomado posse no comando do Ministério da Cultura. A sua promessa de que se empenharia ao máximo para incluir a gastronomia na renúncia fiscal poderia estar brotando do arroubo de um novato, de um recém-chegado. Não. Definitivamente, não. Ele falou de caso bem pensado. É larga e profunda sua vivência na área da cultura. Basta dizer que chefiou o gabinete de Gilberto Gil, durante todo o tempo em que o nosso magnífico músico esteve à frente do Ministério da Cultura.

O recém-empossado estava sendo firme e claro em sua oratória, abordando o tema com o conhecimento e a segurança de quem trazia na bagagem uma expressiva trajetória na área da cultura. Ele chegava ao posto de ministro, aos 50 anos de idade, depois de ter sido secretário municipal de Cultura do Rio de Janeiro, presidente da RioFilme, jornalista da Folha de S. Paulo e de outros veículos da imprensa nacional.

Quem lida com a gastronomia, dizia o ministro, é irradiador de cultura. Aplaudi com gosto. Enquanto aplaudia, pensava, nas muitas cozinheiras, nos diversos cozinheiros, nos incontáveis “chefs” que conheci nas minhas andanças por este mundo vasto mundo dos bares e restaurantes. E pensei bastante no Xapuri, a exuberante obra nascida do engenho de dona Nelsa. Enquanto aplaudia, prometi a mim mesmo que, regressando a Belo Horizonte, iria ao Xapuri para cumprimentá-la. E assim foi feito.

Estive lá com a minha companheira de vida, a Raquel, e mais alguns amigos: Leca e Paulo Nonaka, Lucas Pêgo e Anderson Ayrolla. Uma noite inesquecível. O tempo todo em que andava por aquele Xapuri cheio de gente e de luzes, me lembrava do que o ministro havia prometido: a gastronomia estará na Lei de Incentivo à Cultura. Ao ver dona Nelsa indo para cá e para lá, exclamei aos meus botões: isso é justo, justíssimo! Ela é, em pessoa, um permanente vetor cultural.

Assistimos a um grupo de congada invadindo o salão do Xapuri. Que maravilha. Depois, surgiu o trio Xapuri, desfiando de mesa em mesa o extenso rol de canções, que têm o brilho do orvalho na relva e trazem o cheiro de terra molhada.

As vozes do trio espalham-se pelo ambiente, que nos surpreende com cenários das antigas casas de fazenda, como o dos dois fogões a lenha crepitando incessantemente. Viro o rosto, e vejo as redes estendidas sob os caramanchões, dispostas para quem quiser esticar o esqueleto no pós-almoço ou jantar. No lado oposto, a lojinha de artesanato, com autênticas obras-primas da nossa arte primitiva. Já na entrada do Xapuri, há uma porteira. Lá embaixo, uma hípica. Dizem-me que, nos fins de semana, a meninada cavalga, liberando os pais para, em família, desfrutarem sossegadamente o sábado ou o domingo.

A religiosidade da dona Nelsa é tão sutilmente elegante quanto ela própria. Percebe-se a sua crença e a sua fé no artesanato da pomba do Espírito Santo, que abre as suas asas em um cantinho qualquer daquele território Xapuri, síntese da Minas rural. Eis as raízes do Brasil. Até bem pouco tempo, éramos um país essencialmente rural, com 60% ou 70% da população morando na roça.

O ministro tem razão. A gastronomia é cultura. Dona Nelsa vem provando isso há três décadas. Se ela quisesse mostrar e oferecer aos convivas todo o acervo guardado na sua memória e no seu coração, o Xapuri precisaria ser um restaurante/fazenda de dimensões latifundiárias. Ela resumiu o mais que pôde. O cardápio ficou com “apenas” umas 100 opções de comestíveis. Entre as bebidas, um apreciável estoque de cachaças e cervejas artesanais mineiras. Depois de tudo isso, a rede, porque ninguém é de ferro.

Sim, a rede pode vir a calhar, pois há, no cardápio, pelo menos 25 pratos principais, como o frango ao molho pardo, 40 fartas porções de petiscos, como o torresmo à pururuca, e 40 sobremesas, como a goiabada cascão e queijo. Cada um desses itens carrega as histórias das gentes, o modo de pensar e de viver do povo de determinado lugar, a lembrança dos ingredientes colhidos em uma horta ou em algum pomar. Os mineiros podem ter saído da roça, mas a roça não sai de dentro dos mineiros.

Este certamente também é o caso de um carioca, o ministro Sá Leitão. Ele sabe muito bem que a vida é feita de sol, chuva, sereno, vento, tempestade, bonança. A natureza requer a diversidade, como nos diz o seu ex-chefe, o ministro Gil, na música Refazenda. Enquanto uma planta entra em dormência, outra floresce. “Abacateiro, teu recolhimento é justamente o significado da palavra temporão. Enquanto o tempo não trouxer teu abacate, amanhecerá tomate e anoitecerá mamão”.

Tomado pelo entusiasmo e pela emoção da noite, faço o seguinte comentário a Raquel e aos amigos, em meio às alegrias do trigésimo aniversário do restaurante da dona Nelsa. Uma vez sancionada a inclusão da gastronomia na renúncia fiscal, será muito apropriado convidar o ministro Sá Leitão para proferir uma palestra aos donos dos bares e restaurantes de Minas, lá dentro do Xapuri, que dispõe de espaço e equipamentos audiovisuais para eventos institucionais de diversos formatos.

Olho para o artesanato da pomba de asas abertas. Recito, mentalmente, trechos do salmo que traduz o sentimento de dona Nelsa diante da vida. Tempo de plantar, tempo de arrancar, tempo de guardar; tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar; tempo de prantear, e tempo de dançar.

Mais ou menos nesse tom, Chico Buarque, o conterrâneo do ministro da Cultura, assim escreveu para a canção e a voz de Milton Nascimento: “Decepar a cana, recolher a garapa da cana, roubar da cana a doçura do mel, se lambuzar de mel. Afagar a terra, conhecer os desejos da terra, cio da terra, propícia estação e fecundar o chão”.

Esta é uma das músicas mais solicitadas pelos comensais ao trio Xapuri, que há 25 anos canta de mesa em mesa, no restaurante da dona Nelsa, ao som da viola, do violão e do acordeão. O ministro tem razão.

* Artigo publicado originalmente no Destrinchando


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