Queremos menos centralismo, mais comunidade, mais vida real

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* Por Paulo Solmucci Júnior

A América Latina surgiu de um modelo de poder vertical. Ou seja: de cima para baixo. Os portugueses foram, no entanto, os campeões absolutos na arte de trazer e impor ao Novo Mundo o seu completo pacote colonizador, com a corte, o clero, os burocratas ditando a máxima do manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Os lusitanos pisaram muito mais fundo do que os seus vizinhos da Espanha no controle central, tanto assim que conseguiram manter o unificado domínio neste vasto território tropical da língua portuguesa. A América espanhola fragmentou-se em várias nações.

O resultado disso é o nosso precário entendimento sobre como se desenvolveram as sociedades historicamente formadas nas bases comunitárias, isto é, de baixo para a cima. Até hoje, quando alguém explica ao seu interlocutor que não moramos nem na União e nem no Estado, mas nas nossas vilas e cidades municipais, o ouvinte costuma ficar admiravelmente perplexo com essa inusitada revelação.

E, assim, a gente normalmente dá imensa importância ao presidente da República, ao deputado federal e ao senador, deixando meio de lado o prefeito e o vereador. Os prefeitos, por sua vez, recolhem-se a esse status de insignificância quando costumeiramente estendem ao poder central os seus inseparáveis pires de mendigo.

Enquanto o Brasil não se desintoxicar do centralismo, mergulhando em uma clínica de tratamento da cidadania, vamos continuar patinando na história, como temos feito nos últimos cinco séculos. Somos um país dependente do mandonismo estatal, viciado nas doses diárias dos estimulantes que nos são indulgentemente concedidas pelos chefões da Esplanada do Ministério e da Praça dos Três Poderes.

Agora, começamos a destampar a panela dos nossos desejos. Estamos nos tornando capazes de verbalizar. O que queremos? Queremos menos centralismo, mais comunidade, mais vida real e menos asfixia de um poder central que o tempo todo, dia e noite e noite e dia, devora as nossas energias e esperanças.

O que nos exaure é um Estado macrocéfalo, parasitário, sugador das seivas que deveriam nutrir este país de nome vegetal, desvitalizando-o das raízes ao tronco, dos galhos às folhas, enfraquecendo a sua capacidade de produzir, com larga fartura, as mais exuberantes flores e sementes.

Água e sol não lhe faltam. E não lhe falta a terra, na qual, em se plantando, tudo dá. Ao interpretar os sintomas do mal-estar, chegamos às causas do que há muito nos aflige. A gente vê que está aparecendo uma luz no fim do túnel, e não é um trem vindo em sentido contrário.

Eis que, no curtíssimo prazo de um ano, foi regulamentada a gorjeta, promoveu-se a primeira rodada da reforma trabalhista, decretou-se que a atividade dos supermercados é essencial à economia (assim permitindo que funcionem aos sábados e domingos, sem as dificuldades advindas de intermináveis renegociações sindicais), reabriu-se a perspectiva de se incluir a gastronomia na lei federal de incentivo à cultura, ensaiaram-se as medidas iniciais para instaurar um ambiente concorrencial entre as empresas de cartões de crédito.