Honório Pinheiro - Um novo Brasil nasce da educação e da comunicação entre as pessoas


A modernização da legislação trabalhista começará a aproximar os empregadores e empregados, desfazendo o histórico antagonismo

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“Valorizo a dificílima arte de fazer de modo simples”, diz Honório Pinheiro, presidente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e coordenador da União Nacional das Entidades de Comércio e Serviços (Unecs). Isso significa ter um “propósito e traçar os caminhos da vida para alcançar o objetivo almejado”. A sua razão existencial, como resumiu, são a qualidade de vida das pessoas, das famílias e da comunidade, por meio da educação. Estes princípios se formaram nele, conforme descreveu em entrevista a Bares & Restaurantes, a partir da pedagogia do berço.

Eis, a seguir, alguns dados biográficos do entrevistado da revista Bares & Restaurantes.

Nasceu em 1954, atravessou a primeira infância, até os dez anos de idade, em um distrito de Solonópole, a cerca de 100 quilômetros de Quixadá e Quixeramobim, na macrorregião do Sertão Central cearense. Segundo dos cinco filhos de uma família muito pobre. A mãe, Gracinda, era professora primária. Alfabetizou todos os de casa. O pai, Joaquim Honório, um camponês do agreste, repetia o mantra diário: somos todos frágeis e temos de unir, solidariamente, com os vizinhos.

Junto com o irmão Bosco, seguiu o caminho de Fortaleza para cursar os três anos do colegial, em busca do propósito comum entre os dois: profissionalizarem-se. Honório fez dos livros o seu primeiro ofício. Passou a vendê-los de porta em porta. Depois, arrumou a ocupação de vendedor de frutas e verduras, em uma banca de feira livre.

Ele e o irmão entraram para a faculdade de Administração de Empresas. Trabalharam na J. Macêdo, um grupo que se iniciou com a moagem de trigo, e, posteriormente, diversificou-se para a fabricação de massas, misturas para bolo e sobremesas. A seguir, foi contratado para coordenar a operação comercial da rede de concessionárias da Volkswagen no Ceará.

Honório e Bosco resolveram, em 1979, montar um pequeno empório para o pai, na periferia de Fortaleza. Daí surgiu a Mercearia União, denominação que se referia ao elo com os vizinhos. Mais tarde, os irmãos deixaram seus empregos e juntaram-se ao pai. Abriram mais duas lojas. Em 1991, emerge a nova marca: Pinheiro Supermercado, já com um slogan 'o bom vizinho'. São, hoje, 11 lojas espalhadas na capital, em Sobral, Quixadá, Limoeiro do Norte e Aracati, dispondo-se, também, de um centro de distribuição na região metropolitana de Fortaleza.

O presidente da CNDL e coordenador da Unecs é sócio do irmão Bosco na rede supermercadista. Formou-se em Administração de Empresas, Direito e Psicologia Organizacional, com dois cursos de pós-graduação. Presidiu a Câmara de Dirigentes Lojistas do Ceará. Na sequência, assumiu o comando da federação estadual das Câmaras de Dirigentes Lojistas, a FCDL. Em julho de 2017, tornou-se o coordenador da Unecs.

A ênfase que ele conferiu ao associativismo comercial, em seu percurso, conceitualmente converge para a sua visão gregária de aproximação entre as pessoas, em torno de um objetivo comum. Este é o patamar sobre o qual, no seu modo de ver, tem de se plantar a educação, “que é o principal vetor do desenvolvimento socioeconômico sustentável”.

Com esta plataforma, presidiu a Câmara de Dirigentes Lojistas de Fortaleza. Em 2008, inaugurou dentro da sede da instituição a Faculdade CDL, que oferece os cursos superiores de Marketing, Logística, Redes de Computadores, Ciências Contábeis, Análise e Desenvolvimento de Sistemas, e Gestão Comercial. Oferece, também, cinco cursos de pós-graduação, entre eles os de ICMS, Gestão Estratégica de Pessoas, e Gestão de Comunicação.

Honório Pinheiro sente-se, como ele mesmo se define, como “uma pessoa do povo’. Enaltece os ambientes em que haja a mistura social, com as classes de diferentes de renda compartilhando o mesmo espaço de convívio. Acha que não pode existir, “de modo algum”, o elitismo nas associações de empreendedores, como nos tempos de 1955, quando a entidade dos lojistas foi fundada, no Rio de Janeiro, com o nome de “Clube” (e na Câmara) de Dirigentes Lojistas.

O que continua atrapalhando uma parcela do associativismo no Brasil, como sublinhou, são a vaidade e o ciúme entre os que almejam o status de líder, a falta de planejamento e método, a atitude voluntariosa de se tocar vários projetos ao mesmo tempo, a intermitente mudança no rumo das ações, a excessiva importância que se dá às autoridades de cúpula, em detrimento de uma relação orgânica com as bases da sociedade - ou seja, com as pessoas, as famílias, os vizinhos e as comunidades.

“Nos nossos negócios, olhamos para dentro, isto é, para os colaboradores, e para fora, isto é, para os clientes e fornecedores. É imprescindível que se acredite nas pessoas. A nossa matriz é a crença, a capacitação e a parceria”.

O que tende a mudar na relação entre os empregadores e empregados, agora que se iniciou a revisão da legislação trabalhista?

Começará a mudar a cultura, o que não é um processo fácil. Desde o Brasil colônia, o patronal não se comunicava com o laboral. Houve sempre um viés de disputa. É uma questão que atravessou os tempos, de forma muito viva, até umas três ou quatro décadas atrás. E isso mudou muito pouco de lá para cá. O que se passa a exigir, daqui em diante, é uma evolução no sentido da complementariedade. E, nesse processo, a figura do dono vai se diluindo. Desaparece, automaticamente, na medida em que todas as pessoas, seja em uma empresa média ou grande, se envolvem no mesmo projeto. Quando é uma empresa pequena, o que se requer, para que se alcance o ponto da complementariedade, é encontrar os parceiros certos.

Quem tem de mudar: patrões ou empregados?

Todos. As mudanças na legislação trabalhista nos colocam diante do desafio de um avanço cultural, em que as pessoas não mais estejam em lados opostos, passando a se sentarem e dialogarem em uma mesa redonda. Os sindicatos também terão de mudar, porque foram construídos sob a ótica de se dar força ao trabalhador, mas não uma força de capacitação e conhecimento, e sim de disputa, de conquista. E, do outro lado, o empregador sempre via o sindicato laboral com esse viés do confronto.

Além das alterações na legislação trabalhista, o que pode impulsionar essa evolução cultural?

Há dois vetores que, a meu ver, são muito importantes, são imprescindíveis: a educação, sob o ponto de vista da formação, e a comunicação. No passado, o empregador dispunha de uma matriz de desenvolvimento (educação, informação, conhecimento) muito maior do que a do empregado. Nesta era da internet, isso se alterou enormemente. Já não há mais o monopólio do conhecimento, tornando-se mais facilmente constatável o que o pedagogo e filósofo Paulo Freire, que trabalhou muito com a educação de adultos, dizia: não há saber maior ou menor; há saberes diferentes. Anteriormente, as diferenças entre as pessoas eram facilmente identificáveis, até visualmente. Hoje, se viajo em um avião em que também está uma mulher, não se verá claramente que sou o controlador da empresa e ela é a operadora de caixa.

A complementariedade requer uma aproximação entre as pessoas. Não há mais a figura dominante do detentor do poder. É isso?

Felizmente, as disparidades se reduziram de maneira significativa. É o que temos de nos dar conta. Esse exercício de humildade não é muito fácil, porque o antagonismo ficou demasiadamente arraigado na nossa cultura. Mas todos os conhecimentos precisam ser cada vez mais valorizados. Há um amigo, concessionário de automóvel, que tem uma irmã, pós-doutora em Direito Constitucional, que, segundo ele, não sabe o que é uma fechadura de porta. Cada um resolve determinada questão. Você é jornalista, conhece comunicação. Eu conheço calçada, gôndola, capacitação da pessoa, sob a dimensão motivacional. Há muitos que não têm a ambição de serem os donos de uma empresa. Querem ser o CEO (chief executive officer, o diretor-executivo).

Ou seja: o espírito da época é se associar. E o que precisa, então, para que o associativismo da representação empresarial evolua?

O que atrapalha o associativismo empresarial, em uma expressiva parcela das entidades, são a vaidade e o ciúme. Faz parte do legado cultural, que precisa evoluir para outra dimensão. Há um potencial enorme para as entidades de livre adesão. Com o fim da contribuição sindical compulsória, que decorreu da reforma trabalhista, abre-se um grande espaço, porque o Sistema S vai ter que mostrar serviço. Terá de competir com as entidades de filiação voluntária (o sistema S compreende os serviços sociais e de aprendizagem ligados às confederações nacionais da esfera sindical, como as da indústria, agricultura, comércio, transportes). O associativismo empresarial precisa, também, trabalhar com planejamentos estratégicos metrificados, bem traçados, definindo-se metas e centros de atividades distribuídos entre os seus dirigentes, acabando-se com esse costume generalizado de todo mundo cuidar de tudo, sem foco. E, aí, novamente, vamos à complementariedade. Um tem de compreender o outro. E o que se coloca diante das associações é o mesmo desafio que está posto para as empresas brasileiras, em face das transformações sociais deste milênio: comunicar-se para dentro e para fora, aos associados, à sociedade, à classe política, ao mundo oficial.

Fonte: Revista Bares & Restaurantes, edição 118. * A entrevista completa está disponível na versão impressa. 
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