Ricardo Bomeny - O sucesso vem da interação com todos os franqueados


A BFFC, que controla as marcas Bob’s e Yoggi, e as franquias da KFC e Pizza Hut, em linha com a era digital e a gestão século XXI

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Um leve crescimento no resultado da Brazil Fast Food Corporation (BFFC), descontada a inflação, é o que prevê para 2017 o presidente do grupo, Ricardo Bomeny. A corporação sob o seu comando é proprietária das redes Bob’s e Yoggi e franqueada das marcas KFC e Pizza Hut. No conjunto, são atualmente 1.150 lojas. Mais 100 lojas serão inauguradas em 2017, geograficamente distribuídas no país, com predominância para cidades do interior e São Paulo.

Em cinco anos, pretende-se atingir a meta de 2 mil pontos de venda. A BFFC vem investindo, desde o final de 2016, em sistemas de digitalização das lojas, com vistas a incrementar o autoatendimento, e, por conseguinte, simplificar e agilizar as operações da clientela na escolha e entrega dos produtos, bem como nos respectivos pagamentos. Ao lado do aumento da produtividade, a digitalização faz parte de um processo de customização, tendo em vista o público jovem.

A BFFC antecipa-se assim, no Brasil, ao declínio da manipulação de dinheiro em espécie, que é um movimento já em estágio avançado nos países desenvolvidos. Diante dessa nova configuração, decorrente da virada tecnológica e comportamental, Bomeny considera que se torna ainda mais urgente o Brasil se alinhar ao resto do mundo no que concerne aos custos dos meios móveis de pagamento, como o dos vouchers refeição e alimentação e, ainda, dos cartões de crédito.

Um país compatibilizado com o mundo Do mesmo modo que se impõe um alinhamento nacional às práticas concorrenciais prevalecentes nos países com maior grau de desenvolvimento socioeconômico, ele acha que o Brasil tem também que modernizar suas instituições. Para tanto, precisa acelerar as reformas previdenciária, trabalhista, tributária e política. Ele acha que estão dados os primeiros passos nesta direção.

Mesmo com todas as dificuldades de tramitação das reformas no Congresso, Bomeny declara-se otimista em relação aos desejados avanços institucionais do país. “O varejista é um otimista por natureza, e eu me incluo nessa categoria”. Na sua opinião, a mudança de tom na economia pode ser antevista pelos sinais preliminares de que a tormenta está passando, embora o tempo ainda permaneça nublado, sem que se possa enxergar, no momento, uma “pontinha do sol”. Está confiante, porém, de que se consumará a previsão de melhora, um sentimento que, como disse, é compartilhado por seus interlocutores do mundo empresarial. As notícias boas, no curto prazo, são “a queda da inflação e, consequentemente, o declínio na taxa de juros”. Trata-se, a seu ver, de valiosos sintomas iniciais, que podem fazer com que, pouco a pouco, a roda da economia volte a girar, sobretudo no setor varejista. “Isso é positivo para o nosso negócio, na medida em que, tendo-se um crédito mais barato, consegue-se acessá-lo, porque de nada adianta um financiamento caro se você não consegue pagá-lo”. Uma relação orgânica com os franqueados O mundo de hoje, conforme expôs Bomeny, tem de ser visto por meio de novas lentes, que permitam um olhar panorâmico, uma vez que as relações de causa e efeito tornaram-se menos lineares. Isso implica – acrescentou ele - que haja um permanente diálogo dos dirigentes da holding com o universo de seus franqueados e fornecedores. Na semana de 3 a 7 de abril, Bomeny esteve na convenção trianual do Bob’s que juntou esse conjunto de interlocutores no Rio das Pedras Club Med, em Mangaratiba, no Estado do Rio.

Um dos franqueados presentes ao encontro foi o conselheiro nacional da Abrasel, Célio Salles, que tem 12 restaurantes e 13 quiosques Bob’s em Florianópolis, em uma rede que começou a implantar há 25 anos. Ele define Ricardo Bomeny como um “líder íntegro, transparente, interativo e visionário”, que está na BFFC há 21 anos, os últimos 15 como CEO. Uma de suas mais notáveis qualidades, como explicou Salles, é dialogar com os franqueados, buscando captar as percepções sobre tendências de mercado e recolher as sugestões de cada um acerca das inovações que podem ser testadas.

“O Ricardo sempre adotou a atitude de escuta, estimulando os franqueados a apresentar as suas observações e ideias. Além da convenção, a holding realiza dois encontros anuais, um nacional e outro regional. Mas a interação de Bomeny e dos demais dirigentes com as franqueadas da BFFC ocorre cotidianamente. É um comportamento natural dele, algo que ele foi intensificando cada vez mais no decorrer desta uma década e meia de comando da holding. Exerce, de fato, uma liderança no melhor padrão do século XXI”, afirmou Salles.

Ricardo Bomeny concedeu à B&R a entrevista que se segue.

A retomada está chegando?

O tempo tende a melhorar. Parou de chover. Ainda está nublado, sem que a gente consiga enxergar uma pontinha do sol. Mas vamos ver. Percebemos, inclusive trocando informações com muitos empresários, que parou de piorar. Já nos últimos meses de 2016, sentíamos um cenário diferente daquele do primeiro semestre.

Como foi 2016?

Vamos dizer que foi um ano de ajuste, o que, em meio a uma situação como essa, pode-se até dizer que nos saímos bem. Conseguimos, também, defender o lado do custo, revendo contratos, discutindo com os fornecedores. Então, sob o ponto de vista do resultado, a gente conseguiu fazer o que foi projetado.

O que se espera de 2017?

Um crescimento acima da inflação. Temos um projeto de inaugurar cerca de 100 pontos de venda. Temos, hoje, 1.150. A distribuição é bem planejada, do ponto de vista do mapa geográfico do Brasil,sem qualquer concentração em uma única região. As perspectivas são positivas.

Mas, há alguma particularidade nessa distribuição geográfica das novas lojas, independente do fato de estar pulverizada no país?

O que eu posso lhe dizer é que o setor de franquias, como um todo, está olhando muito para o interior, que não já é mais aquele interior de antigamente. O interior de hoje demanda por marcas. No geral, a gente tem uma divisão dos nossos restaurantes razoavelmente muito parecida com a divisão do PIB. Então, vamos crescer em todos os lugares. Mas, como estamos veiculando constantemente pela televisão, a gente acaba chegando em muitas cidades que não tínhamos lojas. Há, portanto, uma demanda reprimida em várias cidades. Essa interiorização acontece no país inteiro.

Na edição anterior da B&R, a capa foi Cacoal, um município de Rondônia que reflete essa pulsação do interior brasileiro. Há loja Bob’s lá. É uma cidade que tem voos diários para Cuiabá.

Isso mesmo. Temos uma loja Drive Thru em Cacoal há cerca de quatro anos. No ano passado, abrimos uma loja Drive Thru em Primavera do Leste, que fica a duas horas rodoviárias (230 quilômetros) de Cuiabá. Você tem uma interiorização como efeito dos bolsões de exportação de grãos, como é o caso de Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Então, em regiões como essas nós temos entrado. Mas, acompanhamos, também, a expansão de alguns setores, como é o caso dos shopping centers. Nos dois últimos anos, o setor de shopping centers, como um todo, deu uma segurada nos lançamentos, mas não nas cidades entre 150 mil e 200 mil habitantes. E quando isso acontece, nós somos sempre convidados a também participar dos empreendimentos. Então, este é um outro vetor. Acompanhamos, ainda, o crescimento das redes de supermercados e das petroleiras ao longo das rodovias.

Nos Estados Unidos os shoppings estão em acentuado declínio.

Mas no caso brasileiro, a indústria do shopping ainda não está totalmente madura. Digo isso porque há ainda muitos lugares para se fazer shopping, mesmo nos grandes centros. O Rio está com dois ou três lançamentos. São Paulo deve ter mais alguns (a capital paulista, que já tem 52 shoppings, ganhará outros seis nos próximos dois anos, como noticiou a Folha de S. Paulo). Belo Horizonte, outros (em janeiro foi anunciado o lançamento de um grande shopping, no bairro do Prado). Quer dizer: ainda não se esgotou a capacidade desses empreendimentos nos grandes centros.

As reformas estruturais vão andar?

O varejista é um otimista por natureza, e eu me incluo nessa categoria. Temos visto alguns avanços. Neste momento, as notícias mais importantes são as da queda da inflação e, consequentemente, declínio na taxa de juros. Então, isso é positivo para o nosso negócio. Na medida em que se tem um crédito mais barato, consegue-se, por outro lado, acessá-lo. No caso do varejo, isso é representativo, porque as margens são baixas. Então, de nada adianta um financiamento caro, porque você não conseguirá pagá-lo. Estamos ouvindo que a meta de inflação, antevista pelo governo, é de 4% a 4,5% ao ano. E provavelmente teríamos, neste ano, a taxa Selic de um dígito.

O que está motivando o presidente Temer a fazer as reformas?

Teremos eleições no ano que vem, e o governo está olhando para isso, independente de quem seja o candidato. A eleição presidencial do ano que vem mexe com muitas decisões que precisam ser tomadas agora. Fora isso, há toda essa questão de o país sendo passado a limpo, com as investigações da Lava Jato, que acabam desestabilizando um pouco o ambiente político. Mas, por outro lado, as investigações são necessárias para o país ter mais transparência e ser mais respeitado.

Para o seu setor, qual, de todas as reformas, é a mais importante?

A longo prazo, para o setor e para todo o país, é a previdenciária. Aí, a gente não pode olhar como empresário, mas sim como brasileiro. Já a reforma trabalhista, dependendo do modo como for encaminhada – e o que a gente tem visto é que há pontos positivos para o setor de bares e restaurantes -, é muito importante, incluindo aí a jornada intermitente. Uma conquista foi a regulamentação da gorjeta. E não falo isso em causa própria, porque não temos garçons. Outro tema que não se pode deixar de mencionar é o da reforma tributária. Vivemos uma certa instabilidade, que está localizada nas secretarias estaduais da Fazenda. A todo momento tem que estar olhando o que o governo está fazendo e pode nos afetar. Por exemplo: recentemente, surgiu em São Paulo a questão do ICMS na carne, que acabaram taxando. Decretou-se o fim da isenção estadual do ICMS da carne a partir de primeiro de abril.

Qual a sua avaliação sobre o sistema de cartões e dos vales refeição e alimentação no país?

É um sistema muito importante e robusto. No momento em que o país iniciou uma trajetória de declínio das taxas de juros, é importante que os custos destas transações (taxas e custos associados à operação) acompanhem esta tendência e estejam mais alinhados com valores cobrados no exterior. Isso teria um efeito muito positivo no varejo.

* A versão na íntegra desta entrevista está disponível na versão impressa da revista Bares & Restaurantes, edição 115. 
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