Vinícius Lummertz - O desafio do ambiente de negócios no turismo

O turismo pode assegurar a sustentabilidade, conscientizando e financiando a conservação do patrimônio natural e cultural


O Brasil saltou do 51º para o 28º lugar no ranking internacional de competitividade no turismo, elaborado pelo Fórum Econômico Internacional. Muito da súbita ascensão na pesquisa, que foi divulgada em maio deste ano, deve-se à vasta exposição internacional, com uma série de grandes eventos sediados no país, desde 2007. Houve também melhoria na infraestrutura hoteleira, aeroportuária e de centros de convenções. Mas, há um fator que impediu a escalada ainda maior do turismo brasileiro no ranking: o ambiente de negócios.

“O licenciamento e a construção de uma marina, no Brasil, demora 12 anos, quando sai. Em Miami, obtém-se a licença em 90 dias, nas áreas permitidas. E na área que não pode, não pode”, diz o catarinense Vinicius Lummertz Silva, presidente da Embratur, autarquia que cuida da promoção e do apoio à comercialização, no exterior, dos produtos turísticos brasileiros. Ele diz que o turismo brasileiro avançou enormemente nos últimos, especialmente nos últimos oito anos, quando se deflagrou a série dos grandes eventos.

O presidente da Embratur concedeu entrevista à Bares & Restaurantes, na qual destaca que, com as elevadas cotações do dólar, em um cenário que deve assim permanecer por mais alguns anos, iniciase um ciclo de forte incremento na atração de visitantes estrangeiros e, também, na movimentação do turismo doméstico. “O turismo entrou na cesta de consumo dos brasileiros”, diz ele. O dirigente estatal vislumbra, também, uma forte temporada de verão, com a presença, no litoral brasileiro, de visitantes latino-americanos, sobretudo de argentinos, chilenos e colombianos.

Vinicius Lummertz é formado em Ciências Políticas pela Universidade Americana de Paris, tendo feito pós-graduação na Kennedy School, da Harvard University. Foi titular da Secretaria Nacional de Políticas Públicas, do Ministério do Turismo. Entre outros cargos, ocupou o de diretor técnico do Sebrae, e, no governo de Santa Catarina, em momentos distintos comandou duas secretarias: a de Articulação Internacional e a de Planejamento, Orçamento e Gestão.

Estes são os principais trechos da entrevista do presidente da Embratur:

Como será o movimento turístico nos próximos seis meses e ao longo de 2016?

Vamos ter uma temporada muito boa, com os brasileiros viajando pelo Brasil. E mais os estrangeiros, principalmente os da América Latina, vindo para cá já neste verão. Depois, haverá o período de Olimpíadas, concentrado no Rio de Janeiro. Serão 400 mil estrangeiros, com alta renda, no Rio. Mas isso não vai impedir o turismo de verão no Nordeste, e do inverno, no Sul. Ao contrário. Vai ser um excelente ano no turismo. E, o que é muito importante, será uma ótima oportunidade de o turismo mostrar a sua força. É o início de um novo ciclo, com real baixo e dólar caro, que perdurará por alguns anos. O turismo entrará num ciclo positivo. É hora de não apenas aproveitar isso, para botar dinheiro em caixa e pagar as contas, mas para fortificar o discurso do turismo, melhorar o ambiente de negócios, captar mais investimentos nacionais e estrangeiros, abrir os parques brasileiros. Para se ter uma ideia, aqui no Brasil uma marina leva 12 anos para ser licenciada e construída, quando se consegue. Na região de Miami, são 90 dias para se obter a licença, onde as marinas são permitidas. Onde não pode, não pode. Mas onde pode, em 90 dias libera-se a licença.

Essa iminente ascensão do turismo interno, além das dificuldades para se viajar ao exterior, em razão da alta do dólar, é motivada por que fator?

O turismo entrou na cesta de consumo dos brasileiros. Virou hábito. O brasileiro transformou-se, cada vez mais, em viajante, investindo na experiência, do direito das férias e do lazer. O primeiro fator que impulsionou esse novo movimento, no sentido de viajar para fora, foi a renda e o câmbio. Agora, viajará menos para o exterior, e mais para aqui dentro. O que mais impulsionou o turismo dos brasileiros foi o ingresso de 40 milhões de pessoas ao mercado consumidor.

Ao mesmo tempo, haverá maior entrada de turistas estrangeiros.

É verdade. O Brasil evoluiu muito no turismo, catalisado pelos grandes eventos, em um ciclo iniciado em 2007, com os Jogos Panamericanos. Depois, foram os Jogos Mundiais Militares, a Jornada Mundial da Juventude, a Copa das Confederações, a Copa do Mundo e, agora em 2016, as Olimpíadas. Os grandes eventos aceleraram o setor, que cresce há oito anos seguidos, a uma taxa sempre mais do que o dobro do que o crescimento da economia nacional, com 4%, 5% e 6% ao ano. Se você usar os números do Fórum Econômico Mundial, divulgados em maio deste ano, verá que, no turismo, subimos 23 posições em competitividade, passando do 51º para o 28º lugar, em uma pesquisa envolvendo 140 países. O acelerador foram os grandes eventos, foi a visibilidade dada ao Brasil. Só a Copa do Mundo teve três bilhões de telespectadores. Nas Olimpíadas, serão cinco bilhões. Neste verão, o país receberá 1,75 milhão de argentinos. Virão também colombianos, chilenos e das tantas outras nacionalidades latino-americanas.

 

"O nó não está no dinheiro, mas na mentalidade, que gera um modelo superado, anacrônico, obsoleto".


O que mais impulsionou o turismo brasileiro na escalada de 23 posições no ranking turístico do Fórum Econômico Mundial?

É o fato de passarmos a ser considerados a primeira potência natural e paisagística do planeta. O que nos puxa para baixo é o ambiente de negócios. Em 140 países que fazem parte do ranking, somos o 137º mais difícil na montagem de um negócio do turismo. Só há três países piores do que o Brasil. Eu falei da dificuldade de se obter uma licença para marina. Este é um exemplo bem ilustrativo. Temos de melhorar o ambiente de negócios do turismo. Há a falta de entendimento de que o turismo é aliado do meio ambiente, seja ele quando se trata do conjunto dos parques nacionais, das marinas e dos portos turísticos oceânicos, lacustres e dos rios. Falta o entendimento de que somos parceiros do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), bem como dos correlatos órgãos estaduais, na conservação e no desenvolvimento das cidades históricas, de forma sustentável. Sustentabilidade não é tirar dinheiro dos cofres públicos para remodelar o centro histórico. O meio ambiente e o patrimônio cultural são salvos quando existe consciência e dinheiro. Sem consciência não se salva; sem o dinheiro não se faz. Temos 320 parques naturais praticamente fechados, só com 8 milhões de visitantes por ano, contra 280 milhões nos Estados Unidos. O nó não está no dinheiro, mas na mentalidade, que gera um modelo superado, anacrônico, obsoleto. E, no meio disso, a burocracia em geral e o direito interpretativo dando margem à insegurança jurídica. Como dizia Ulysses Guimarães, o difícil não é matar o monstro; é remover-lhe as entranhas. Mas você pode perguntar: não está acontecendo nada, no Brasil? Está. Estamos no meio da mudança, com a percepção global advinda dos grandes eventos realizados aqui, desde 2007.

O anacronismo legal e burocrático é superável?

Uso aqui uma frase do meu amigo Luiz Henrique (uma das lideranças nacionais do PMDB, falecido em maio deste ano, o catarinense Luiz Henrique da Silveira foi governador do seu estado, prefeito de Joinville, deputado federal e senador). Ele dizia que nada é tão forte como a ideia cujo tempo chegou.

O momento da simplificação vai chegar?

O Brasil se rende às evidências ao longo do tempo. O problema do Brasil não é o de que não se faz as coisas. É que se leva tempo para fazer as coisas. E há descontinuidade. Quando se inventa algo de bom, aparece alguém para botar um atrapalho, transformando uma boa ideia em uma suposta solução de aplicação duvidosa, e põe essa ideia de volta ao final da fila. O Brasil é lento, mas cumpridor. Tem uma cultura de não se elevar o conflito. E, assim, demora muito tempo para acomodar. O benefício é que se tem baixo conflito. O custo é o tempo.

Em quê o Brasil foi cumpridor, no que diz respeito ao turismo?

O país já detém, hoje, a terceira aviação civil do planeta, com 206 milhões de voos por ano, o dobro em dez anos. Ocorreram as concessões dos aeroportos, e há o projeto de melhorias e construção de 270 aeroportos regionais. Tem aeroportos, hotéis, centros de convenções. Há 450 hotéis sendo construídos. O Ministério do Turismo está investindo R$ 1 bilhão em centros de convenções, ajudando os estados a construí-los. E o turismo confere produtividade às outras cadeias da economia. Isso ocorre quando provocou o aparecimento de muito mais hotéis de qualidade, centros de convenções  novos, bons aeroportos, boas frequências de voos, voos nos horários, como aconteceu na Copa e continua acontecendo, com poucos atrasos, estatisticamente. Os preços das passagens aéreas, excetuando-se as corporativas, marcadas de última hora, diminuíram. Tudo isso melhora, naturalmente, as viagens comerciais. E melhora a integração do país com seus vizinhos da América Latina. Temos mais voos para a Colômbia. Por conta da Latam (resultado da fusão entre as empresas aéreas TAM e a LAN), 388 mil chilenos estão vindo ao Brasil.Isso dobrou em dez anos, de 2004 a 2014. Teremos o hub da Latam no nordeste, que será em Fortaleza, Natal ou no Recife. Haverá um mega impacto no nordeste, porque turismo e logística são interligados, melhorando os voos, a hotelaria, as cargas aéreas, o cargo. Esses 388 mil chilenos que vêm ao Brasil são, na maior parte, turistas de sol e mar. Os brasileiros que vão para lá são atraídos pelo esquiar e pelas visitas às vinícolas, entre outros atrativos. E a geração de frequência de voos funciona como uma plataforma de negócios. O turismo é indutor - mediante sua infraestrutura - da conectividade entre todos os demais setores da economia.

O sucesso do agronegócio é um balizador para a efetivação das potencialidades do turismo?

A grande vantagem da agroindústria e do turismo são o tamanho do Brasil, os recursos naturais, a água, o sol. Mas o agronegócio é mais concentrado e o turismo é mais complexo, como cadeia. São coisas diferentes. Mas os elementos básicos, entre os dois, são a liberdade para empreender, que o sistema do agronegócio conseguiu e integração nas cadeias produtivas internacionais e a referência da Embrapa.

Na sua observação de que o turismo, em relação ao agronegócio, é mais complexo, o que quer dizer isso?

O turismo não é um setor. Não existe isso. O turismo é uma dimensão, no sentido mais matemático do termo. É uma dimensão econômica de 52 setores. Se você pegar o PIB direto do turismo, dá 3,6%. Se você somar o indireto e o induzido, o PIB vai a 9,2%. Se você pegar o emprego direto do turismo, contam-se 3,3 milhões de pessoas trabalhando. Mas, pegando-se o indireto e o induzido, chega-se a 8,8 milhões de brasileiros. Trata-se de uma consagrada medição internacional, denominada Conta Satélite do Turismo, feita pela World Travel and Tourism Council (WTTC), junto com a Oxford Economics, com a chancela da Organização Mundial do Turismo (OMT), da ONU. É com essa sistemática da Conta Satélite do Turismo que se consegue fazer todas essas medições. Então, por exemplo, se as toalhas Dohler são vendidas para um hotel de Ouro Preto, em Minas, essa transação vai para a conta turismo. Se são vendidas para o consumo doméstico de uma família, aí não vai para esta conta. Se a GM vende um carro para a Localiza, vai para a conta turismo. Mas se o carro é vendido a uma empresa ou ao governo, fica fora da conta.

Diante dessa complexidade, como conduzir um avanço do turismo, agora que o Brasil já está esgotando, com as Olimpíadas, a safra dos seus grandes eventos internacionais?

Temos de liberar as forças do setor produtivo para que ampliem o PIB, que é o único jeito de a pretensão brasileira de uma socialdemocracia, conforme o desenho da Constituição de 1988, caber na nossa economia. E isso não vai acontecer se continuamos a impedir os parques nacionais, as marinas, os bares e restaurantes de gerarem receita. Precisamos criar no Brasil uma moral do desenvolvimento. Não desenvolver é punir os jovens, que aspiram a mais e melhores oportunidades na vida. O anacronismo vai contra o jovem, contra o imposto que deixa de ser arrecadado, contra a riqueza que não é gerada, e, por consequência, contra a creche, a escola, a mobilidade urbana, a segurança pública, o posto de saúde e o hospital. Esta é a hora de entendermos a dimensão do turismo, aproveitando o ciclo do câmbio, em que o Brasil ficou mais barato para ser visitado, e avançou muito na hotelaria, nos centros de convenções, na infraestrutura aeroportuária, além de ser internacionalmente ainda mais admirado. Mas, o paradoxo é que o turismo brasileiro caminha com uma mochila de pedras nas costas, que é a burocracia, a insegurança jurídica, o modelo anacrônico de uma visão do meio ambiente que é conservadora, no sentido de que é retrógada, e não é conservacionista, no sentido da sustentabilidade, com um discurso equivocado de uma gente que fala para si mesma. Temos de atualizar a esfera institucional, para que nos posicionemos frente aos desafios presentes da produtividade e competitividade.


Fonte: Revista Bares & Restaurantes nº106 *Matéria na íntegra disponível na versão impressa
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