José Oliveira Júnior - Sem o respeito às diferenças, o país não avança na cidadania


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Os motivos das manifestações de rua, ocorridas em meados do ano passado, continuam sendo um mistério. O que se imagina é que talvez tivesse eclodido um difuso e generalizado descontentamento contra o “que aí está”, utilizando-se como pretexto a suposta indignação decorrente do aumento de vinte centavos nas tarifas de ônibus. É até possível que as pessoas, naquelas grandes multidões, “tivessem uma insatisfação com elas mesmas”, supõe o mineiro José Oliveira Júnior, estudioso e profissional de políticas públicas ligadas à proteção e promoção da diversidade cultural.

Nem os institutos de pesquisa conseguiram detectar, com clareza, o que movia as massas a se revoltarem, inclusive, deixando atrás de si um rastro de destruição de lojas, bares, restaurantes, cabines telefônicas, pontos de ônibus ou estações do metrô, agências bancárias, carros de emissoras de televisão. Mas, no final das contas, o país parece não ter apreciado os caóticos protestos de rua, tanto assim que não ousou repeti-los. Teria agido como uma criança pirracenta que, após o chilique, voltou aos seus brinquedos de sempre, como se nada tivesse se sucedido.

Aconteceram episódios de mortes. E, uma vez cessada a zanga, esses trágicos eventos caíram no esquecimento, alojando-se na Terra do Nunca, como no mundo mágico de Peter Pan, no qual não se fazem conexões de causa e efeito. Crescer significa adquirir o senso de previdência. Ou seja: desenvolver a capacidade de traçar uma rota de navegação, procurando vislumbrar o porto de chegada, pois, como sentenciou Sêneca, não há vento favorável para quem não sabe aonde ir.

Amadurecer implica a superação do narcisismo, no qual a criança fecha-se nela mesma, recusando-se a diferenciar o “eu” do “outro”, achando feio tudo o que não é espelho, como escreveu Caetano Veloso. O processo de percepção do outro implica aceitá-lo com suas singularidades – ou diferenças, como queira. É este o campo de estudos e de ação de José Oliveira Júnior. Ele é supervisor de pesquisa de uma organização não governamental, com sede em Belo Horizonte, denominada Observatório da Diversidade Cultural (ODC).

Sem a compreensão de que o outro é diferente de cada um de nós não há a empatia, substantivo que se traduz pela capacidade que alguém tem de sentir o que ela mesma sentiria caso estivesse na situação e circunstâncias experimentada por outras pessoas. É pelo entrelaçamento de relações empáticas que se tece uma trama social criativa, no qual as pessoas mutuamente respeitam, e até incentivam, seus respectivos limites e semblantes.

Para Oliveira Júnior, o respeito ao direito do outro é o inevitável desdobramento do respeito às diferenças entre as pessoas, “não no sentido de tolerar, mas de entender que a diversidade é raiz criativa da própria sociedade”. Ele concedeu à revista Bares e Restaurantes uma entrevista de uma hora de duração, cujo resumo é o que se segue.



B&R – Qual é o saldo, hoje, dos grandes protestos de ruas que antecederam à realização da Copa do Mundo, em junho do ano passado?
José Oliveira Júnior – Havia um discurso contra o Estado, mas sem uma preocupação sobre qual é a postura de cada um de nós diante do outro. As manifestações foram feitas a pretexto do aumento da tarifa de ônibus. Mas é como se o aumento da tarifa resumisse todas as frustações contra o Estado, que, no meu entendimento, pareciam ser frustações das pessoas em relação ao estado das coisas, em geral, no mundo. Como não sabiam dizer o que queriam, talvez estivessem dizendo que, no fundo, não queriam participar de uma construção coletiva, que começa por cada um deixar de ser o centro do mundo. Cada um tinha uma reclamação específica: era contra a tarifa, contra a Copa, contra a PEC 37 (a que retiraria o poder de o Ministério Público promover investigação criminal, deixando-a só com as polícias federal e civil), contra os impostos altos no país. Mas havia os que se manifestavam favoravelmente à Copa, que queriam que o acesso ao transporte aéreo voltasse a ser ‘civilizado’, sugerindo, assim, que a ampliação das oportunidades para mais pessoas tivesse se tornado um problema. Chegamos a ver, em manifestações recentes, em São Paulo, uma faixa pedindo a desmilitarização da polícia, enquanto uma outra pedia intervenção militar, já. É o retrato das contradições dos movimentos de rua.

B&R – Como responder a isso?
José de Oliveira Júnior - Nós precisamos mudar, a partir dos próprios hábitos e posturas, a gente mesmo. Todos temos responsabilidade, e não é só o Estado, que é o reflexo da sociedade que a gente ajuda a construir.

B&R – E por onde começar?
José de Oliveira Júnior – Que a gente tenha uma preocupação sincera e efetiva com o outro, e que não estejamos querendo nos defender de um outro que sequer conhecemos. Esta pode ser a primeira das ações mais ativas em favor da cidade: reconhecer o direito de cada um a ter direito sobre sua cidade. É lidar com o outro no ambiente urbano, reconhecendo que o outro é diferente, tendo uma predisposição para entender o outro como absolutamente pleno de direitos. Ele tem o direito de ser confuso, por exemplo. Eu tenho o direito de usar o cabelo do jeito que eu quiser. A moça que passa por mim tem, inclusive, o direito de andar sem cabelo, se achar melhor, não?

B&R – Mas há pessoas que não se comportam, que desconsideram o espaço alheio.
José de Oliveira Júnior – Em viagens de ônibus, por exemplo, há pessoas que levam seus travesseiros grandes, como se estivessem no quarto ou no sofá de casa. Ao colocar o cobertor sob a cabeça, para seu conforto pessoal, em parte invadem o espaço da cadeira do vizinho. E ainda há quem pergunte: está incomodando? Tem gente que entra no ônibus de viagem, no meio do caminho. Descalça uma bota, que parece não ter saído do pé há um mês. Muitas vezes, estende a perna sobre o braço da cadeira em frente. Posso pensar: o fulano acha que aqui é o quintal da casa dele, o banheiro da casa dele? Mas, quando estou pensando dessa forma, já estou colocando o outro num lugar ruim. Ele pode estar fazendo uma coisa equivocada, mas eu também posso estar equivocado quando julgo o lugar dele. A metáfora do ônibus diz respeito a muitos lugares. Até que ponto a nossa sociedade foi, desde os seus agrupamentos familiares, preparada para entender que as pessoas não são o centro do mundo, que não são melhores que os outros. Quantos pais prestam um desserviço à sociedade ao não preparar seus filhos para lidar respeitosamente com os outros. Isso não é cerceamento de liberdade, como alguns acreditam, mas a preparação para uma convivência criativa, respeitosa e incentivadora para todos. São milhares de outros, com gostos, posturas, crenças e modos de ser que podem ser distintos dos meus.

B&R – E por que você não adverte que está sendo incomodado?
José Oliveira Júnior – Faço isso na minha casa. Ou faço isso com meus amigos, meus alunos. São lugares em que tenho autonomia para interferir socialmente. Nem sempre há espaço para as pessoas emitirem opinião sem serem tachadas de ‘mala’.

B&R – Como é que se deflagra um processo de mudanças, em favor da convivência harmoniosa?
José Oliveira Júnior – Historicamente e conceitualmente, constranger positivamente pode ser um caminho para a convivência criativa. Um prefeito pode ser levado a uma situação de constrangimento se, nas cidades do seu entorno, ou as do mesmo porte da dele, há alguma coisa que vem sendo feita, e que ele não está fazendo. Nesse sentido, a sociedade tem um papel importante de criar, não somente por meio da legislação, condições sociais para que as pessoas entendam, ao se confrontarem com a atitude do outro, que devem agir de uma forma mais positiva e propositiva. Cobrar é uma atitude nobre. Não é nenhum demérito. Não me refiro a reclamações vazias, ou sem sentido, ou reclamações contra alguém ou alguma coisa, mas a ponderações propositivas e enérgicas, em busca de um lugar melhor para todos.

B&R – Você considera, então, que a melhor pedagogia está no exemplo das pessoas, e não nas leis?
José de Oliveira Júnior – O sistema de ônibus, em vários lugares do mundo, têm leis que não são escritas. Em diversos países, quando uma pessoa de idade entra no ônibus, não é preciso que se diga a um jovem para que ceda o lugar. Nesse sentido, a sociedade tem um papel importante de criar condição social para que as pessoas reconheçam no ato do outro um exemplo a ser seguido. O exemplo pode ter um poder mobilizador incrível.

B&R – O que vários disseram, por ocasião das manifestações de rua, é que havia uma indignação do povo, que pagava muito imposto para receber, do Estado, poucos serviços ou serviços de má qualidade.
José Oliveira Júnior – Essa era, de fato, uma das coisas que se falava contra o Estado. Entre as tantas coisas que diziam a respeito dos motivos das manifestações, estava esta: a de uma indignação sobre o que o Estado me dá, em troca do que eu pago. Mas, boa parte dos cidadãos age como se fossem clientes do Estado, como se eu estivesse em um boteco, escolhendo num cardápio o que eu vou pedir. Aí, paguei e tenho direito. Mas isso é outro tipo de composição. Sabemos que, na esfera do interesse público, a relação não pode ser dada pelo pagou-levou. Porque o Estado é para todos. O interesse público, em sua dimensão mais ampla, diz respeito a todos. Seja para quem tenha ou não tenha condição financeira. Quando não se tem essa perspectiva do outro, invade-se o espaço do outro.

B&R – Mas, mesmo no boteco, não se pode fazer tudo o que se quer.
José Oliveira Júnior – Há os que se comportam como se o bar fosse a casa de ninguém, naquele sentido de que se pode fazer o que bem quiser. Eu fui certa vez a uma casa noturna, aqui em Belo Horizonte, chamada Deputamadre. Havia uma quantidade de jovens bem vestidos, que agiam como se estivessem na casa deles, ou no banheiro da casa deles. Tinha aquele monte de gente dançando. As pessoas não se interconectavam, a não ser pela música que estava sendo tocada. E observei uma cena que retrata muito bem o individualismo. A pessoa está lá com a namorada, em pé, encostada na parede, em um canto da pista de dança. Daí foram ambos ao banheiro. Na volta do banheiro, o rapaz, acompanhado da moça, encontrou alguém encostado no lugar, no mesmo canto. E por isso queria brigar, como se aquele espaço fosse dele. Ou seja: acha que tem direito, porque pagou.

B&R – Como se resolve uma situação assim, que é tão comum?
José Oliveira Júnior – Na minha concepção, e de outros pesquisadores, as pessoas, como dizem um professor amigo meu, não nascem, predispostas a lidar com as diferenças. Elas causam estranhamento, por vezes até desconforto. É uma opção pessoal, que pode ser incentivada por políticas públicas, de educação para a diversidade. Só que isso tem de ser extensivo. A gente precisaria de muitos anos. O reconhecimento às diferenças do outro leva a pessoa a ter um sentido de adequação aos locais de convívio, tornando-a capaz de pensar, por exemplo, se seria legal gritar naquele lugar ou naquela situação. Lembro que não é por força de coação, ou por obrigação, ou por medo de repressão, mas, sim, por opção voluntária, que tomamos atitudes de uma convivência que seja melhor para todos. E, voltando aos três passos: reconhecer que o outro é diferente; aceitar que ele tem o direito de ser diferente; incentivar essa diferença que o outro tem, ou optou por ter.



Fonte: Revista Bares & Restaurantes nº101 *Matéria na íntegra disponível na versão impressa
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