Jair Meneguelli - Compromisso com o bem-estar social


Assumir o papel de líder tem sido uma constante na vida de Jair Antônio Meneguelli. Nascido em 1947, aos 29 anos o paulista filiou-se ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema e em 1981 assumiu a presidência da entidade. Por 11 anos à frente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Meneguelli cumpriu importante papel no desenvolvimento de políticas trabalhistas e salariais brasileiras.

Em 1995 foi eleito pela primeira vez deputado federal e teve seu mandato renovado até 2002. Durante seus dois mandatos continuou atuando em prol dos direitos dos trabalhadores e da construção de uma legislação trabalhista mais moderna. Com a chegada do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, assumiu a presidência do Conselho Nacional do SESI, sendo o primeiro trabalhador metalúrgico a ocupar o posto. Há 11 anos à frente do Conselho, Jair Meneguelli, coordena também o Fórum Nacional do Sistema S.

Na liderança de projetos como o ViraVida e o Cozinha Brasil, além de campanhas como a internacionalmente conhecida “Não Desvie o Olhar”, o trabalho desenvolvido por Jair Meneguelli enfatiza a importância que ele dá a tarefa de ampliação da responsabilidade social das empresas e ao trabalho que realiza no sentido de ampliar direitos e reduzir a exclusão por meio de educação e qualificação profissional.

Com uma parceria recém-firmada com a Abrasel, os projetos e campanhas desenvolvidos pelo SESI tendem a ganhar apoio massivo de negócios de alimentação fora do lar em todo o Brasil. Meneguelli conversou com a Revista Bares & Restaurantes sobre sua história e os próximos passos da instituição, que reafirmam o compromisso com o bem-estar social dos brasileiros.

B&R - O SESI foi criado em 1946 como uma iniciativa liderada por empresários que viram a necessidade de elaborar um plano de ação social para o país. Neste mesmo ano foi fundado o Conselho Nacional, órgão que o Senhor preside desde 2003, sendo o primeiro metalúrgico a ocupar o posto. Sua história
de expressiva atuação no movimento sindical contribuiu para a trajetória que vem traçando à frente do Conselho? De que forma influenciou o desenvolvimento de políticas e programas do SESI?

Minha história de vida e de militância sindical me permitem ter uma visão mais social do mundo. Ao assumir uma instituição criada, exclusivamente, para fiscalizar e normatizar o Serviço Social da Indústria, o SESI, me vi no dever de ir além e de buscar o estímulo e o ritmo necessários em minhas origens para desenvolver ações e projetos que fossem voltados ao bem-estar dos trabalhadores e da comunidade em geral.

Assim que assumi o Conselho Nacional do SESI em 2003, passei a desempenhar um papel articulador entre as instituições do Sistema S e demais agentes sociais, do governo e iniciativa privada, para o desenvolvimento de políticas vinculadas à sustentabilidade nas diferentes dimensões: social, alimentar e ambiental. Esse trabalho resultou na criação dos programas Cozinha Brasil em 2004, ViraVida em 2008 e mais recentemente do Meu Ambiente.

A criação dessas iniciativas partiu da necessidade de sensibilizar e mobilizar diferentes setores da sociedade para a ampliação do papel de responsabilidade social de governos, empresas e entidades do Terceiro Setor quanto à ampliação de direitos e redução da exclusão, por meio do estímulo à educação, à capacitação profissional e à valorização do ser humano e do ambiente em que ele vive.

Eu não poderia ter uma conduta diferente na minha posição, por que sou o primeiro trabalhador metalúrgico a assumir a presidência de uma entidade que, tradicionalmente, foi gerida, desde sua criação, por representantes do meio empresarial.

Com certeza, esse é o principal legado de minha trajetória de vida e de minhas convicções a frente das ações do Conselho Nacional do SESI.

B&R - Quais são as principais diretrizes e ações que o Conselho Nacional desenvolve?

Institucionalmente, o Conselho foi criado, há 65 anos, para normatizar e fiscalizar o Serviço Social da Indústria (SESI). Essa é a nossa diretriz originária, ou seja: discutir e estabelecer metas, definir programas, aprovar o orçamento do Departamento Nacional e dos Departamentos Regionais da instituição, além de acompanhar a execução dessas ações.

Porém, além de estar sempre presente em nossa diretriz institucional, a responsabilidade social orienta todas as nossas ações, projetos e programas que têm como missão contribuir para a sustentabilidade, o desenvolvimento socioeconômico, a inclusão e a consciência social do país.

B&R - O Conselho Nacional do SESI e a Abrasel estão desenvolvendo uma nova parceria cujo objetivo é promover ações conjuntas que proporcionem
a melhoria dos hábitos alimentares no setor de alimentação fora do lar, o aumento da competitividade e sustentabilidade do setor, a valorização dos produtos da agricultura familiar, o combate à exploração sexual de crianças e adolescentes e a empregabilidade de jovens em situação de vulnerabilidade social, por meio de programas e projetos da entidade. Como o Senhor avalia a importância deste trabalho em conjunto com a Abrasel?

O setor de bares e restaurantes está alinhado com nossos programas e ações. Primeiro, por que é um dos segmentos da economia mais democráticos que existe, pois atinge públicos de todas as classes, regiões e crenças, no mundo inteiro. Segundo, por que trabalha com sentimentos e necessidades fundamentais na vida de qualquer pessoa, que precisa se divertir e se alimentar. É aí que está a importância dessa parceira.

Se, por um lado, nossos programas têm o objetivo de promover a sustentabilidade humana, por outro, a Abrasel representa e promove o desenvolvimento dos setores relacionados com esse tema. Então, por que não conciliarmos alimentação e entretenimento com mais saúde e responsabilidade social?

B&R - Um dos projetos de destaque é o Cozinha Brasil, programa de educação alimentar e nutricional que vem, há dez anos, ensinando a população brasileira e de outros países a preparar uma alimentação mais saudável, a baixo custo e sem desperdício. Qual a importância de trabalhar esses temas junto aos brasileiros? Quais são os principais ganhos que o programa trouxe durante esses anos?

O Cozinha Brasil é um programa de vanguarda. Ao mesmo tempo em que promove uma alimentação mais saudável na mesa das pessoas, ele conscientiza a sociedade sobre a importância na redução do desperdício, por meio do aproveitamento integral dos alimentos. Tudo isso utilizando partes de produtos de alto valor nutricional que, na maioria das vezes, seriam jogadas no lixo.

É fato que a obesidade, a pressão alta, o diabetes, entre outros males da vida moderna, estão matando cada vez mais. E, para combater essa realidade, há dez anos, o Cozinha Brasil já percorreu quase dois mil municípios do país e conscientizou mais de um milhão de pessoas, que participaram de cursos gratuitos e aprenderam a se alimentar de forma mais saudável e econômica.

Os benefícios são enormes para quem teve a oportunidade de conhecer o Cozinha Brasil e para quem entendeu que a alimentação saudável e sem desperdício, não é apenas uma necessidade, mas, sim, um dever de todos nós.

B&R - O Cozinha Brasil envolve o repasse de informações sobre a escolha, aproveitamento e preparo de alimentos, além de propagar o consumo de refeições
em quantidades adequadas. Por meio disso, busca a melhoria do desenvolvimento de vida da sociedade brasileira. Como envolver os bares e restaurantes nesse processo, considerando a parceria com a Abrasel?

Todas as pessoas que frequentam bares e restaurantes se preocupam com a saúde, têm família, filhos, pais, enfim, todos sabem da importância da alimentação para uma vida mais promissora e saudável.

Certamente, os donos de bares e restaurantes também se preocupam com o bem-estar de seus clientes.

Essa interação entre o “prato” e o alimento saudável já é desenvolvida por muitos chefes e restaurantes em todo o Brasil. E pode-se deixar claro para o consumidor que esta é uma proposta daquele estabelecimento. Ou seja, mostrar que o bar ou restaurante já adota conceitos de sustentabilidade nos vários serviços disponíveis para o consumidor, o que pode ser explorado como um diferencial.

B&R - O projeto ViraVida, que atende jovens entre 16 e 21 anos vítimas de abuso ou exploração sexual, vem ganhando importância e força. Por meio de cursos profissionalizantes, educação básica e acompanhamento psicossocial, esses jovens são inseridos no mercado de trabalho. Como os bares e restaurantes podem contribuir para isso?

É um setor fundamental para a empregabilidade dos jovens do ViraVida. São milhares de restaurantes e bares que podem suprir grande parte da demanda de empregos do programa.

Ao mesmo tempo, esses estabelecimentos têm a oportunidade de contratar profissionais qualificados por instituições de excelência como o SESI, o SENAI, o SESC, o SENAC, entre outras, que são referência em educação e capacitação profissional.

Precisamos apenas fazer um alinhamento entre as necessidades do setor, em termos de mão de obra, e o direcionamento dessa capacitação aos jovens, ou seja, formar profissionais preparados especificamente para o setor de alimentação fora do lar.




B&R - Há ainda uma campanha propagada mundialmente intitulada “Não desvie o olhar” que combate a exploração sexual de crianças e adolescentes e está diretamente relacionada a grandes eventos. Com o Brasil sediando a Copa do Mundo este ano e os Jogos Olímpicos em 2016, se torna ainda mais importante trazer essa bandeira para dentro de casa. Os bares, lanchonetes, restaurantes são palco
de muita movimentação de turistas brasileiros e estrangeiros. De que forma podem vestir a camisa da campanha e serem importantes ativos nesta luta?

Basta apenas ter atitude e se importar com as outras pessoas, principalmente, aquelas que ainda não tiveram a oportunidade de vencer na vida.

Consciência, amor ao próximo, responsabilidade e, acima de tudo, compaixão, são apenas algumas das atitudes que os proprietários de bares e restaurantes em todo o Brasil devem ter em relação aos jovens e adolescentes que não tiveram oportunidades
na vida.

O papel de cada um é fundamental para que, não só a campanha Não Desvie o Olhar dê certo, mas para que possamos extinguir esse crime que destrói a juventude.

Abram as portas para a mensagem da campanha. Mobilizem-se para desestimular essa prática na sua região. E tenham consciência de que o empresário tem que ter o compromisso social de promover o bem-estar de todos a sua volta.

B&R - O setor de alimentação fora do lar gera seis milhões de empregos no país, boa parte deles e dos negócios ainda na informalidade, o senhor enxerga que o SESI possa ser um parceiro junto da Abrasel para o enfrentamento do desafio da formalização?


Formalização significa garantia de direitos e deveres a todos. E durante toda minha trajetória de vida, trabalhei para garantir esses direitos ao trabalhador, ao empregador e a toda sociedade.

Acredito que a Abrasel, como representante nacional de um segmento forte e amplo, poderia ser um dos principais articuladores de políticas e programas voltados para estimular a formalização no setor de alimentação fora do lar.

Fonte: Revista Bares & Restaurantes nº97 - entrevista na íntegra disponível na revista*