Nos barzinhos, os elos da cidadania





alt


* Por Paulo Solmucci Júnior

Cheio de dedos, o morador do prédio solicita ao vizinho que baixe o volume. Ouve o xingamento: “vai se ...”. O irado cidadão é o mesmo que, ao caminhar na calçada, cospe o chiclete no chão. Em uma roda de conversa, não tem a menor cerimônia de interromper a fala do outro. Para bem no meio do corredor para conversar com o amigo. Muito à vontade, o sujeito interrompe o balconista que atende você, perguntando o preço de um determinado produto. É o dono do mundo, que não pode ser minimamente contrariado no seu egocentrismo.

As cenas descritas são tão comuns que, se você reclamar delas, será tido como um ranzinza, um chato de galocha. Ouvirá palavrões, levará um soco, ou, ficará suscetível, inclusive, a se tornar o alvo de vários tiros, como os que mataram Josafá da Silva, dono do “self-service’ sem balança de Planaltina (DF), que pediu ao freguês Paulo Henrique de Melo para, da próxima vez, não deixar tanta comida sobrando no prato. O assassino foi preso uma semana depois do crime, ocorrido em 15 de janeiro de 2013. Josafá, 46 anos, ex-motorista de ônibus, havia instalado o restaurante há um ano, para sustentar a esposa e os três filhos.

É comum que ouçamos louvações à falta de limites, em frases como a de que “é proibido proibir”. Escutamos coisas deste tipo: “o único limite que deve existir é o do município”. Exalta-se, assim, uma ousadia pessoal que ultrapassa a tudo e a todos, permitindo que o motorista acelere o quanto quiser, invadindo a pista contrária, provocando algum grave acidente, cuja punição passará ao largo da (in)justiça nossa de cada dia.

Temos muito a avançar em direção a uma autêntica civilização. Venho repetindo que a escola da cidadania diária mais presente e espalhada pelo Brasil são os bares e restaurantes. Em milhares de vilazinhas, é só no barzinho (ou na venda, como se diz) que as pessoas se reúnem para conversar. É nesses minúsculos ambientes da informalidade que as pessoas se aproximam, passando a entender que o mundo não pertence a um só indivíduo, mas à humanidade. A autoestima torna-nos mais tolerantes em relação aos outros. É construída a partir do reconhecimento que nos é oferecido pelos nossos semelhantes. Os bares e restaurantes são o palco em que se conectam elos da cidadania. Que os poderes públicos reconheçam essa importantíssima função social.