O recado dos rolês

 

* Por Paulo Solmucci Júnior

A rua, que deixou de existir, invadiu os shoppings. Pois é isso. Os rolezinhos são o sintoma da falta de ruas nas cidades brasileiras. E São Paulo, que é a cidade das cidades, a megacidade, mandou mais um importantíssimo recado ao país. Precisamos mesclar, interagir, misturar, embaralhar as nossas gentes. Isso significa que temos de fazer ressurgir algo que desapareceu dos nossos sentidos, que é aquela sensação cotidiana de habitar o espaço vivo, convidativo à comunicação entre as pessoas.


Mas a rua não existe sozinha, porque sua existência está vitalmente atrelada aos parques e praças, aos bares com cadeiras nas calçadas, aos pontos de ônibus protegidos do sol e da chuva, às calçadas limpas, iluminadas e bem-conservadas, aos policiais andando pra lá e pra cá, às lixeiras que nos solicitam o guardanapo usado e o palito do picolé.

Os rolezinhos são os exilados das ruas que foram apagadas dos nossos mapas urbanos.

Alô, alô, prefeitos, arquitetos, vereadores, jornalistas, sociólogos, deputados, lideranças comunitárias: ouçam o recado da moçada. Os nossos rapazes e moças não são diferentes dos jovens de Nova York, que encontram quadras de skate ou de basquete pontilhadas na cidade. Eles são tal e qual os adolescentes de Paris, e igualmente gostariam de assistir aos concertos de música clássica ou de rock a céu aberto. Os nossos meninos e meninas também querem canalizar suas energias para a celebração das pessoas, para o pedalar nas ciclovias, para o caminhar com proteção, segurança e qualidade visual, para a contemplação do espetáculo diário de rostos, cores e movimentos, para a vida versátil, criativa e variável.

São Paulo falou e está falado. Acorda, Brasil.